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quinta-feira, 18 de maio de 2023

Ginguba

Com a devida vénia, a crónica da rubrica "Cidadania Impura", de Valter Hugo Mãe, publicada na "Notícias Magazine" desta terça-feira,

«Em Luanda, as pessoas dos prédios melhores trazem em seu redor uma nuvem de meninos pedindo e oferecendo o serviço de escovar sapatos. Quase sempre pessoas brancas, com seus empregos estáveis e suas vidas no centro mais bonito da cidade, têm maior facilidade em pagar algo, ainda que a multidão milionária de outrora tenha acabado. Os meninos precipitam-se sobre quem sai dos prédios com suas súplicas e seria necessário ser um banco suíço para acudir a tanta declaração de fome.

Não vejo meninas. Talvez as meninas fiquem mais perto de suas casas, a medo de tudo, que o mundo dos homens é um horror para elas, talvez possam estar nas escolas. Os meninos trazem suas caixinhas de madeira e seus rostos aflitos, e mais aflitos se mostram quando descemos com nossas roupas claras e o perfume dos repelentes de insectos. Alguns meninos julgam que assim é o odor dos frascos da Chanel. As pessoas francesas devem andar por Paris todas a cheirar assim.

Ajudar estas crianças é um exercício de escolhas rápidas. Tenho muito a convicção de que não mudarei Angola mas também me sentiria um bicho se não fosse sensível a um ou outro pedido, ao corpo débil de alguns meninos que aparecem de olhos turvos. Talvez sejam os que começam apenas a sofrer. Os outros podem já ter sofrido tanto que não saibam chorar. Não vou sabê-lo com facilidade. Nada se faz fácil aqui.

Levo algumas notas soltas e não quero nada com sapatos. Caminho à pressa para que fiquem só aqueles que não podem desistir. E depois vou escutando o que dizem e, normalmente, uns corrigem os outros, acusam-se, procuram abater o adversário com argumentos até deselegantes. O certo é que não quero premiar os agressores, quero saber dos que parecem ter maiores responsabilidades. Algumas destas crianças, afinal, têm onze ou doze anos, e são pais. Quando discutem entre eles, falam dos filhos, de como os seus filhos estão doentes.

A vida destes meninos é toda à deriva. Luanda atrai milhões de pessoas na esperança de uma sobrevivência mais digna mas, à falta de tudo, na aridez da cidade, sobretudo as pessoas dos bons prédios são a árvore de onde pode cair o fruto. As matas férteis foram trocadas pelo casco da cidade onde a generosidade que resta é a colheita que pode acontecer.

Um menino disse que quem vem sempre tem os sapatos empoeirados. Quase todas as ruas são de terra batida e não é bonito entrar nas empresas com os pés sujos. Depois, explicou, poderiam vender ginguba, porque é muito barata e algumas pessoas enganam a fome de um almoço só com aquilo. No entanto, é melhor limpar sapatos. Porque isso mantém o emprego. A fome, de qualquer jeito, não vai acabar. Podem sempre comer amanhã.»

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O "Dia Nacional da Morna" comemora-se hoje em Cabo Verde

O "Dia Nacional da Morna" assinala-se esta segunda-feira pela primeira vez em Cabo Verde.

O Parlamento cabo-verdiano aprovou no dia 27 de Fevereiro do corrente ano, por unanimidade, a data de 3 de Dezembro como "Dia Nacional da Morna", cerca de um mês antes de apresentar o processo de candidatura à Comissão de avaliação da UNESCO do género musical a "Património Imaterial da Humanidade", o que aconteceu a 31 de Março.

sábado, 24 de novembro de 2018

Angola é deles e Portugal é nosso

Com a merecida vénia, aqui fica o editorial do jornal "Público" de ontem, da autoria de Manuel Carvalho,

«Diz a experiência histórica e a sabedoria diplomática que na relação entre países não há amizades, apenas interesses, e de uma vez por todas era bom que Portugal e Angola metessem esta ideia na cabeça. Só quando os dois países forem capazes de sustentar o seu diálogo neste padrão de normalidade é que conseguirão matar fantasmas, enterrar desconfianças e abolir a arrogância que a cada passo se esconde por detrás dos sorrisos protocolares.

A visita de João Lourenço a Portugal pode ser o primeiro passo nessa direcção, mas bastou ouvir a primeira pergunta de um jornalista angolano ao presidente português em Belém (quando é que Portugal pedirá desculpa pelo seu passado colonial, quis saber o espertalhão) para se perceber que ainda há muito caminho a percorrer.

Nenhum presidente do mundo teria tantas televisões em directo como João Lourenço e isso não se explica pela grandeza do comércio externo (Angola é hoje oitavo destino das nossas exportações), nem pela dimensão da comunidade portuguesa em Angola – importante, mas aquém da do Reino Unido, para não falar na França ou em outros. Não é, pois, pela intensidade do enlace que os dois países dedicam tanta atenção um ao outro. Há por aí uma obsessão mútua relacionada com um passado mal resolvido a atrapalhar. Mas há também uma necessidade pragmática de o meter na gaveta. Ora, essa necessidade é boa notícia.

Se João Lourenço está em Portugal é pelas melhores razões: por interesse. Ainda que a China, a Alemanha ou a França tenham mais dinheiro para financiar Angola, o saber técnico dos portugueses em domínios como a agricultura, a disponibilidade para as pequenas empresas do Norte arriscarem investimentos ou a facilidade de contactos prestada pela língua são instrumentos que tornam a relação necessária de parte a parte.

Os tempos em que a soberba portuguesa olhava para a pobreza angolana como o campo para uma segunda expansão, ou os dias da troika em que a arrogância angolana olhava para Portugal como um lugar miserável e tão desejoso de capital que chegara a hora de ajustar as contas pela opressão colonial, perderam sentido. O pragmatismo e o empenho de João Lourenço numa Angola melhor hão-de ajudar a demolir tabus assim.

Angola é deles e Portugal é nosso, Angola precisa de Portugal na mesma medida em que Portugal precisa de Angola: é na normalidade diplomática que os dois países poderão reafirmar o que têm de comum. Tudo o resto é conversa patrioteira ou ressabiada »

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Angola, um país rico com 20 milhões de pobres

Na última década, Angola registou um dos maiores crescimentos económicos do mundo, mas manteve-se líder nos índices de mortalidade infantil. Uma semana depois de se assinalarem os 41 anos da independência de Angola, a Grande Reportagem da SIC mostra-nos um país que tem um dos maiores consumos de champanhe per capita e onde 70% da população vive com menos de dois dólares por dia.

sábado, 28 de novembro de 2015

Livro "Estudos Gerais Universitários de Angola: 50 anos, história e memórias"

Foi lançado ontem ao fim da tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian, o livro das edições Colibri, Lisboa, "Estudos Gerais Universitários de Angola: 50 anos, história e memórias". 


Do prefácio escrito pelo Professor Adriano Moreira:

«A criação dos Estudos Gerais Universitários de Angola e, também, na mesma data, de Moçambique foi antecedida de uma grande batalha e, por isso, acompanhada de um erro e de um compromisso. O erro traduziu-se no título das instituições, chamadas Estudos Gerais com o intuito de ficar afirmado que tinham a mesma intenção, dignidade e responsabilidade das mesmas instituições ocidentais usadas na Europa havia séculos. O compromisso teve origem na necessidade de ultrapassar as resistências, desactualizadas nos tempos e nas convicções de muitos, de que era necessário continuar a exigir e manter o ensino superior na metrópole como instrumento para assegurar a unidade prevista na Constituição de 1933. Neste caso tratou-se de um conflito de experiência e de concepção. Quanto à concepção, a ideia de unidade de Portugal nasceu da visão, confirmada por factos históricos, como a Restauração de 1640, de que os portugueses, emigrados pelas cinco partidas do mundo, e os descendentes manteriam essa comunidade, em primeiro lugar de afectos e, depois, de solidariedade e interdependência, que se chama Nação. Uma concepção que seria alargada, com expressão viva no Comandante João Belo, na esperança da assimilação que viesse a unir europeus e gentes das terras. Uma concepção ideológica contraditória com o próprio ensino universitário da época, provavelmente inspirado nas independências do continente americano, e que usava o exemplo de os filhos se separarem dos pais, o que estava em contradição evidente com a interpretação constitucional. Mas era mais relacionada com a convicção da preservação da unidade imperial o engano de que tal objectivo da unidade era melhor servido pela manutenção na metrópole do exclusivo ensino superior que, apenas, tinha excepção na Escola Médica do Estado da Índia, cujos diplomas não eram reconhecidos suficientes na metrópole.»

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Angola, o país onde morrem mais crianças

Uma em cada seis crianças angolanas morre antes de completar cinco anos. Os dados da Unicef levaram até Angola Nicholas Kristof, colunista do The New York Times, para perceber este problema.

"Este é um país repleto de petróleo, diamantes e milionários que conduzem Porsches e crianças a morrer à fome", diz Kristof no início da sua reportagem sobre a mortalidade infantil em Angola. Para além dos números preocupantes relativos à mortalidade infantil, os dados indicam ainda que mais de um quarto das crianças está fisicamente afectado pela subnutrição e que os casos de morte materna durante o parto são de 1 em 35.

Nicholas Kristof viajou por Angola a reunir provas esmagadoras de como a corrupção ao extremo está a matar crianças. E, diz ele, os Estados Unidos devem pedir responsabilidades ao governo angolano.

Esta reportagem, foi divulgada em Portugal pelo jornal "Público". O vídeo inserto abaixo pode ser visto aqui na versão traduzida para português.

sábado, 13 de junho de 2015

Angola e a crise dos petrodólares

.../...«a crise não está a atingir apenas as classes mais baixas. Luís Fernando, administrador executivo do grupo privado MediaNova (que tem a Exame ou o jornal O País), não tem dúvidas: “A crise não está nos jornais nem é uma conversa de economistas, está aí, é real.” Está a afectar as classes média e alta - hoje é mais difícil ir de férias, usar cartões de crédito, fazer tratamentos de saúde no estrangeiro - “podendo, ninguém aceita fazer uma intervenção mais séria em Angola”, lembra.
.../...
Militante do MPLA, lembra que “em boa hora aconteceu esse problema com o petróleo”, que acaba por ser uma maldição. “Angola tem os melhores pastos do mundo, vá verificar esses pastos e não há vacas a pastar. Se temos dinheiro a jorrar das plataformas de petróleo, é mais fácil comprar a carne lá fora. Este é o país que não produz rigorosamente nada, nem um pente. Não é normal que 24 milhões comam coisas vindas de fora. Não há nada na nossa produção que não dependa do estrangeiro. Se produzo frango, há algum elo na cadeia produtiva que depende do estrangeiro - quanto mais não seja o técnico. Se não tenho divisas para importar a maquinaria, vou ficar encalhado, entrar em colapso. Criámos uma cultura dos petrodólares.” É urgente, por isso, apostar na diversificação da economia, mas isso será feito ao longo de várias gerações, lembra.

.../... Apesar da quebra, o petróleo continua a produzir riqueza. Só a sua exportação em Janeiro, a partir de dez concessões, rendeu cerca de 1,16 mil milhões de euros. É preciso, então, sair das estradas de terra batida para ver onde está essa riqueza.


Do alto de um arranha-céus, à noite, as luzes dos prédios fazem de Luanda uma cidade que se mostra cosmopolita. Na varanda do Dooh Bar, o bar da empresária Isabel dos Santos, desfilam manequins, há dourados, muitos, e um grau de sofisticação na produção da toilette que já não é frequente ver em muitos sítios de Portugal. Nas mesas espalham-se chocolates e copos com bebidas. Elas e eles vestiram-se a rigor para uma festa de Páscoa. Aqui o champanhe só se vende à garrafa: custa cerca de 250 euros. Um português gestor do negócio de uma da grandes marcas de champanhe, que preferiu ficar sob anonimato, diz que o impacto da crise só se tem notado nas noites, com uma noite forte semanal em vez de três.

Apesar disso, a facturação tem crescido nos últimos dois anos - têm aumentado a capacidade de distribuição e de logística, e chegado a outras cidades além de Luanda, que representa 90% do negócio. Na venda em supermercados, onde uma garrafa custa à volta de 80 euros, a crise não se sente.

Vale, por isso, “muito a pena” estar em Angola a todos os níveis, até porque “a personalidade do consumidor angolano fá-lo ter necessidade de escolher este tipo de produto, a escolha de marcas de luxo para afirmação social ainda é uma prioridade”, continua o gestor. “Não havendo possibilidade de fazer estudos de mercado por causa da falta de informação, nós no nosso dia-a-dia vamos conseguindo fazê-lo. Posso dizer que temos eventos onde um grupo de pessoas chega à festa e pede 50 garrafas de champanhe ao mesmo tempo. Vemos que não vão beber as 50 garrafas, muito menos ao mesmo tempo, mas fazem questão que o ritual seja esse. A questão de se mostrarem como pessoas com capacidade económica está muito presente - isto é notório todas as semanas e de forma recorrente.”

Não deixa de ser paradigmático que o país em que cerca de 37% da população vive abaixo do limiar da pobreza nacional com 40 euros por mês (dados de 2013, estudo do BPI) seja o mesmo que tem um dos maiores consumos de champanhe per capita: as vendas rondaram as 40 mil caixas por ano (240 mil garrafas), sobretudo em Luanda, para um público-alvo estimado de 300/400 mil pessoas. “É muito champanhe para tão pouca gente.”


É o país em que quase 70% da população vive com menos de dois dólares por dia e onde a cesta básica para uma semana custa 50 dólares. É dos países que mais consomem champanhe per capita e onde o lixo amontoado nas ruas convive com carros de luxo. A quebra do preço do petróleo veio levantar bandeiras vermelhas e pôr na agenda o discurso de que a “petrodependência” pode ser fatal: é urgente diversificar a economia, avisam analistas.»

(Excertos do artigo intitulado "Entre o lixo e o luxo, Angola sobrevive à crise" da autoria de Joana Gorjão Henriques e de Sérgio Afonso, publicado no jornal "Público" em 19 de Abril passado)