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sexta-feira, 13 de março de 2026

Dia Europeu de Sensibilização contra a Violência sobre Médicos e outros Profissionais de Saúde

Ontem, dia 12 de Março, assinalou-se o "Dia Europeu de Sensibilização contra a Violência sobre Médicos e outros Profissionais de Saúde". O Bastonário da Ordem dos Médicos apelou para uma atitude social e política de tolerância zero contra todas as formas de violência e enquadrou a intervenção da instituição para apoiar os médicos que sejam vítimas dessas situações intoleráveis de agressão, independentemente da forma que assumam.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Estudo conclui que as tatuagens têm efeitos prejudiciais no sistema imunitário

As tatuagens podem deixar sequelas no organismo humano, enfraquecendo as suas defesas e deixando-o mais exposto a infecções ou tipos de cancro. A conclusão é de uma investigação realizada ao longo de sete anos por 12 grupos de investigação internacionais.

(Foto: Peter Gercke - AFP)

Para além de permanentes na pele, as tatuagens podem causar danos definitivos no sistema imunitário do ser humano. As conclusões são de um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, liderado por Santiago F. González, do Instituto de Investigação Biomédica ligado à Universidade da Suíça italiana.

A investigação indica que, logo após a realização de uma tatuagem, a tinta alastra-se rapidamente pelo corpo humano e, em poucas horas, acumula-se em grandes quantidades nos gânglios linfáticos, órgãos vitais do sistema imunitário, avançou esta quarta-feira a agência noticiosa espanhola EFE.

"Dentro dos gânglios linfáticos, as células imunitárias conhecidas como macrófagos capturam activamente todos os pigmentos, desencadeando uma resposta inflamatória em duas fases", explicou a universidade suíça em comunicado citado pela agência Lusa.

A primeira fase aguda dura cerca de dois dias. Segue-se “uma fase crónica", que pode "durar anos" e durante este período o sistema imunitário fica enfraquecido, "aumentando potencialmente a [sua] susceptibilidade a infecções e cancro".

De acordo com os investigadores, os macrófagos, células que actuam em defesa do corpo na limpeza de detritos e na reparação de tecidos, não conseguem cumprir a sua função e eliminar a tinta, sobretudo a vermelha e a preta, como fariam com outros agentes patogénicos. As células acabam por morrer no decorrer do processo.

"Consequentemente, a tinta permanece nos gânglios linfáticos, num ciclo contínuo de captura e morte celular, afetando progressivamente a capacidade de defesa do sistema imunitário", conclui a pesquisa realizada ao longo de sete anos por 12 grupos de investigação internacionais, citada pela EFE.

O comunicado da universidade avança ainda que quase uma em cada cinco pessoas no mundo tem pelo menos uma tatuagem.

(Fonte da notícia: RTP/actualizado em 26 Novembro 2025, 20:22)

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Na formação de médicos, Portugal está a meio da tabela da UE


Numa altura em que é notícia quase diária a falta de médicos de várias especialidades no Serviço Nacional de Saúde, o "Eurostat" adianta que Portugal está a meio da tabela dos 27 países da União Europeia no número de médicos diplomados em 2022.

Os especialistas não se cansam de sublinhar que não há falta de médicos em Portugal, mas sim que o problema é que faltam médicos no Serviço Nacional de Saúde. A comparação internacional efectuada pelo gabinete de estatísticas comunitário comprova isso mesmo: em 2022, havia 16,04 médicos licenciados por 100 mil habitantes em Portugal, a 13.ª taxa mais elevada e superior à média dos 27 Estados-membros da UE.

Nesse ano, as taxas mais elevadas de médicos diplomados foram registadas na Bulgária (29,49 por 100 mil habitantes), em Malta (27,66) e na Letónia (27,51). Do lado oposto aparecia a Eslovénia, com 11,36 médicos formados por 100 mil habitantes, seguida da Estónia (12,16) e da Alemanha (12,38).

(Fonte da informação: Jornal "Público" de 07/08/2024)

quarta-feira, 24 de julho de 2024

A Covid-19 pode deixar marcas profundas no cérebro. A diminuição do QI pode ser significativa


A confusão mental tem sido, desde os primeiros dias da pandemia da Covid-19, um problema de saúde de difícil solução para os cientistas - este é um termo coloquial para descrever um estado de lentidão mental ou falta de clareza e nebulosidade que torna difícil a concentração, lembrar-se das coisas ou pensar com clareza.

Quatro anos volvidos da pandemia, há provas abundantes de que a infecção pelo SARS-CoV-2 pode afectar o cérebro de várias formas, indicou Ziyad Al-Aly, especialista da Universidade de Washington, em St. Louis, nos Estados Unidos. No entanto, apesar de um grande e crescente conjunto de dados, ainda está por se perceber as vias específicas pelas quais o vírus o faz, sendo que os tratamentos curativos são inexistentes.

Dois novos estudos, publicados no New England Journal of Medicine, trouxeram outra luz sobre o impacto profundo da Covid-19 na saúde cognitiva . Eis alguns dos estudos mais importantes até ao momento que aferiram como a Covid-19 afectou a saúde do cérebro:

- grandes análises epidemiológicas mostraram que as pessoas infectadas corriam um risco aumentado de déficits cognitivos, como problemas de memória;
- estudos de imagem realizados em pessoas antes e depois das infecções pela Covid-19 mostraram redução do volume cerebral e alteração da estrutura cerebral após a infecção;
- um estudo com pessoas com a Covid-19 leve e moderada mostrou inflamação prolongada significativa do cérebro e alterações proporcionais a sete anos de envelhecimento cerebral;
- a Covid-19 grave que requer hospitalização ou cuidados intensivos pode resultar em défices cognitivos e outros danos cerebrais equivalentes a 20 anos de envelhecimento;
- experiências de laboratório em organóides cerebrais humanos e de ratos projectados para emular mudanças no cérebro humano mostraram que a infecção pela SARS-CoV-2 desencadeia a fusão de células cerebrais, o que efectivamente provoca um "curto-circuito" na actividade eléctrica cerebral e compromete a função;
- estudos de autópsia de pessoas que tiveram a Covid-19 grave, mas morreram meses depois por outras causas, mostraram que o vírus ainda estava presente no tecido cerebral, o que indica que o SARS-CoV-2 não é apenas um vírus respiratório, mas também pode entrar no cérebro de alguns indivíduos;
- mesmo quando o vírus é ligeiro e está confinado exclusivamente aos pulmões, estudos mostram que pode provocar inflamação no cérebro e prejudicar a capacidade de regeneração das células cerebrais;
- a Covid-19 também pode perturbar a barreira hematoencefálica, o escudo que protege o sistema nervoso, tornando-a "permeável";
- uma grande análise preliminar que reuniu dados de 11 estudos abrangendo quase 1 milhão de pessoas com a Covid-19 e mais de 6 milhões de indivíduos não infectados mostrou o aumento do risco de desenvolvimento de demência de início recente em pessoas com mais de 60 anos.

Mais recentemente, um novo estudo publicado no New England Journal of Medicine avaliou capacidades cognitivas como memória, planeamento e raciocínio espacial em quase 113 mil pessoas que já tinham sido infectadas. Os investigadores descobriram que aqueles que foram infectados apresentavam déficits significativos de memória e de desempenho de tarefas executivas.

Este declínio foi evidente entre os infectados na fase inicial da pandemia e entre os infectados quando as variantes Delta e Ómicron eram dominantes. Estas descobertas mostram que o risco de declínio cognitivo não diminuiu à medida que o vírus pandémico evoluiu da estirpe ancestral.

No mesmo estudo, aqueles que tiveram a Covid-19 ligeiro e resolvido apresentaram declínio cognitivo equivalente a uma perda de QI de três pontos. Em comparação, aqueles com sintomas persistentes não resolvidos, como pessoas com falta de ar persistente ou fadiga, tiveram uma perda de 6 pontos no QI. Aqueles que foram internados na unidade de terapia intensiva tiveram uma perda de 9 pontos no QI. A reinfecção com o vírus contribuiu para uma perda adicional de 2 pontos no QI, em comparação com a ausência de reinfecção.

Normalmente, o QI médio é de cerca de 100. Um QI acima de 130 indica um indivíduo altamente dotado, enquanto um QI abaixo de 70 geralmente indica um nível de deficiência intelectual que pode exigir apoio social significativo.

Para colocar em perspectiva as conclusões do estudo do  New England Journal of Medicine, o especialista, num artigo no portal The Conversation, estimou que uma redução de 3 pontos no QI aumentaria o número de adultos norte-americanos com um QI inferior a 70 de 4,7 milhões para 7,5 milhões
- um aumento de 2,8. milhões de adultos com um nível de comprometimento cognitivo que requer apoio social significativo. Dados da União Europeia mostraram que, em 2022, 15% das pessoas relataram problemas de memória e concentração.

Olhando para o futuro, será fundamental identificar quem está em maior risco. É também necessária uma melhor compreensão de como estas tendências podem afectar o sucesso educativo das crianças e dos jovens adultos e a produtividade económica dos adultos em idade activa. E também não está claro até que ponto estas mudanças irão influenciar a epidemiologia da demência e da doença de Alzheimer.

O crescente conjunto de pesquisas confirmou agora que o SARS-CoV-2 deve ser considerado um vírus com um impacto significativo no cérebro. As implicações são de longo alcance, mas levantar a névoa sobre as verdadeiras causas por trás destas deficiências cognitivas, incluindo a confusão mental, exigirá anos, senão décadas, de esforços concertados por parte de investigadores em todo o mundo.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Conceitos e definições relacionados com o género e o sexo


SEXO - definido pelas características cromossómicas, hormonais e anatómicas que levam à atribuição de sexo masculino ou feminino a um determinado individuo.

GÉNERO - conjunto de características e condutas que, numa determinada sociedade, são atribuídas de modo distinto a homens e a mulheres.

IDENTIDADE DE GÉNERO - percepção intrínseca de uma pessoa ser homem, mulher ou ter alguma identidade alternativa ou combinação de várias (transgénero, queer, etc.). A identidade de género de uma pessoa pode ou não corresponder ao sexo atribuído à nascença.

EXPRESSÃO DE GÉNERO - qualquer forma de expressão pela qual cada pessoa manifesta a sua pertença de género, através da aparência física, dos comportamentos de interacção com os outros e da linguagem.

PAPEL DE GÉNERO - comportamentos, papéis, actividades e outros atributos que são socialmente construídos numa determinada sociedade, entendidos como femininos e masculinos.

DISFORIA DE GÉNERO - refere-se ao sofrimento que pode acompanhar a incongruência entre género expresso e o género atribuído à nascença.

NÃO CONFORMIDADE DE GÉNERO/VARIABILIDADE DE GÉNERO - não enquadramento face às normas culturais atribuídas a um determinado género, naquilo que diz respeito à identidade, aos papeis ou à expressão pessoal de género.

TRANSEXUAL - pessoa que deseja mudar ou já mudou as suas características sexuais primárias e/ou secundárias através de intervenções médicas (terapia hormonal e/ou cirurgia) de feminização ou masculinização.

TRANSGÉNERO - adjectivo aplicado a um grupo diversificado de indivíduos que transitam ou transcendem as categorias de género culturalmente definidas. A identidade de género das pessoas transgénero difere em vários graus do género atribuído à nascença.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

O uso de adoçantes para perda de peso é desaconselhado pela OMS

A Organização Mundial de Saúde (OMS) desaconselha o uso de adoçantes,como acesulfame K, aspartame, advantame, ciclamatos, neotame, sacarina, sucralose, estévia (e derivados), para controlar o peso corporal e, numa nova recomendação divulgada nesta segunda-feira, avisa que o seu uso prolongado pode implicar riscos acrescidos para a saúde.


A recomendação baseia-se nos resultados de uma revisão sistemática da evidência disponível, que sugerem que o uso de adoçantes sem açúcar não demonstra eficácia, a longo prazo, na redução da gordura corporal em adultos e crianças, e que o seu uso prolongado pode ainda implicar "potenciais efeitos indesejáveis", nomeadamente um risco acrescido de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e mortalidade em adultos, explica a organização.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Há 30 anos a prometer médicos de família

Com a devida vénia, eis o muito bem documentado editorial de hoje do jornal "Público", da autoria de Andreia Sanches, sua directora-adjunta,

«Em 1991, Cavaco Silva comprometia-se no seu programa eleitoral com “a garantia do direito de cada cidadão” a “escolher o seu médico”.

Vinte anos depois, Ana Jorge, ministra de José Sócrates, lamentava no Parlamento o facto de ir falhar a meta de assegurar a todos os portugueses um médico de família. A culpa era “das reformas antecipadas” no SNS.

Em 2015, António Costa apresentava a intenção de “prosseguir o objectivo de garantir que todos os portugueses” teriam um médico de família. E em 2016, outro ministro da Saúde de um Governo socialista, Adalberto Campos Fernandes, prometeu que iria terminar o ano sem ultrapassar os “500 mil” sem médico da família.

Nunca ninguém cumpriu as promessas. Mas houve vários anos em que conseguimos ficar abaixo da fasquia de um milhão de utentes sem médico de família.

Hoje, há 1,6 milhões nessa situação.

Encontram-se considerações muito interessantes quando se percorre a história do noticiário sobre este assunto e não é só por via das promessas dos governos. Em Março de 2014, a Ordem dos Médicos divulgou um comunicado onde afirmava: “Estão a entrar na especialidade de medicina geral e familiar mais de 400 jovens médicos por ano, pelo que no prazo de quatro a cinco anos todos os portugueses terão um médico de família e, a partir daí, começará a haver médicos de família desempregados.” Foi há nove anos. A Ordem dos Médicos, que sempre achou que não faltam médicos no país além daqueles que já representa, propunha que o Governo contratasse reformados, temporariamente, até o problema se resolver. Não resolveu.

Há dias, a Associação de Estudantes de Medicina disse que se o país aumentar as vagas nos cursos, isso será terrível. As faculdades não aguentam. De resto, argumentou, “não há falta de médicos per se”. Os 1,6 milhões sem médico terão dificuldade em perceber.

Certo é que o Governo sabe que “o cumprimento da meta de cobertura de todos os inscritos no SNS por uma equipa de saúde familiar” depende mesmo de ter mais médicos. E que não basta aprovar uns cursos privados.

A constituição de um grupo de trabalho, como o anunciado esta semana, não é propriamente o desfecho mais entusiasmante de 30 anos de promessas falhadas. Mas é importante o compromisso de que até ao final do ano haverá respostas sobre como e onde, no sector público, a formação de novos médicos pode crescer.

Contudo, como muitos alertam hoje, nesta edição, se o SNS não tiver condições para reter boa parte dos jovens que acabam a especialidade, trabalho, no sector privado ou fora do país, não lhes faltará. E os centros de saúde continuarão a não dar resposta.»

terça-feira, 14 de março de 2023

VEXAS: a nova doença detectada em Portugal


O que significa o nome VEXAS?

É, na verdade, um acrónimo, constituído pelas letras iniciais de algumas das características que definem a doença. De acordo com o Instituto Nacional de Artrites e Doenças Músculo-Esqueléticas e de Pele dos EUA, a designação alude às seguintes propriedades:

- Vacúolos - estruturas celulares frequentemente encontradas nas biópsias realizadas à medula óssea de pacientes com síndrome VEXAS;
- Enzima E1 - a enzima capaz de activar a proteína da ubiquitina, codificada pelo gene UBA1, que apresenta mutações nas pessoas que padeçam desta doença;
- Cromossoma X - o gene UBA1 está localizado no cromossoma X;
- Autoinflamação - um dos sintomas da síndrome;
- Somático - as mutações supracitadas são somáticas, isto é, são adquiridas ao longo da vida, não sendo de origem hereditária.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Carlos Cortes é o novo Bastonário da Ordem dos Médicos


Carlos Cortes venceu esta quinta-feira a segunda volta das eleições para a Ordem dos Médicos. Médico no Centro Hospitalar Médio Tejo e actual Presidente do Conselho Regional do Centro, vai substituir Miguel Guimarães, que é desde 2017 Bastonário desta Ordem.

Numa eleição que teve direito a segunda volta, Carlos Cortes teve 11.176 votos, enquanto Rui Nunes, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e ex-presidente da Entidade Reguladora da Saúde teve 6.867 votos, segundo os resultados provisórios divulgados após o fecho das urnas, pelas 19h00. Nesta segunda volta, que decorreu entre 7 de Fevereiro e esta quinta-feira, votaram 19.312 médicos. Assim, Carlos Cortes foi eleito Bastonário da Ordem dos Médicos com 57% de votos num acto eleitoral com abstenção de 68%.

O novo Bastonário da Ordem dos Médicos deverá entrar em funções no dia 14 de Março.

Natural de Lisboa, Carlos Cortes formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, tendo-se especializado em Patologia Clínica em 2006. Além disso, o médico de 53 anos, é subespecialista em Microbiologia Médica desde 2020 e fez pós-graduação em Gestão e Direcção em Saúde e de Ética em Saúde. Actualmente é presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos e médico no Centro Hospitalar Médio Tejo.

Na primeira volta destas eleições, que decorreram entre 10 e 19 de Janeiro, tinham concorrido seis candidatos. Além de Rui Nunes e de Carlos Cortes, concorreram na primeira volta ao cargo de Bastonário, para o triénio 2023/2025, Alexandre Valentim Lourenço, Bruno Maia, Fausto Pinto e Jaime Branco, contudo, não houve a maioria necessária para eleger o novo Bastonário da Ordem dos Médicos, passando os dois mais votados a esta segunda volta.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Este Estado e as Ordens profissionais

Extraído, com a devida vénia, da crónica de opinião intitulada "Governo forte de Estado fraco" da autoria de António Barreto, publicada hoje no jornal "Público",

.../...«Este Estado vive sem instituições autónomas, pois tenta controlar tanto quanto possível, deixando que a auto-regulação seja cada vez mais uma figura de estilo. A actual discussão sobre as novas leis que regulam as ordens profissionais é mais um sinal inequívoco. A pretexto de lutar contra o corporativismo, bandeira que fica sempre bem, o Governo pretende simplesmente mandar nas ordens, regular os reguladores e ditar as regras. As suas novas leis para as ordens profissionais são quase um mandado de captura!».../...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Medicina na Universidade Fernando Pessoa? A sério?

Considero importante e muito pertinente ler, com toda a atenção, este oportuno artigo de opinião da autoria de João Miguel Tavares, publicado hoje no jornal "Público", para que se conheçam os meandros da anunciada pretensão da "Universidade Fernando Pessoa". Com a habitual e merecida vénia, aqui fica,

«A história de como o infatigável Salvato Trigo recebeu o curso de Medicina com que sempre sonhou está ainda toda por contar.»

«A Universidade Fernando Pessoa é a segunda universidade privada portuguesa à qual foi concedido o privilégio de abrir um curso de Medicina. Se quisermos ser picuinhas, até podemos dizer que é a primeira, porque, em bom rigor, a Católica é uma universidade pública não estatal. O ministro da Saúde, Manuel Pizarro, declarou aos jornalistas: “Não há nenhuma razão para que esteja vedada às universidades privadas a abertura de cursos de Medicina.”

Sempre que um socialista demonstra o seu amor à iniciativa privada de forma tão ostensiva (sobretudo quando a antecessora enterrou as melhores PPP da saúde), podemos ter uma de duas reacções: 1) Celebrar – enfim! – a sua conversão às maravilhas do mercado livre. 2) Averiguar o que é a Universidade Fernando Pessoa e a influência que possa ter nos círculos políticos. Após 20 anos a escrever artigos de opinião em jornais, ensinou-me a experiência que a opção 2 é a mais sensata.

A Universidade Fernando Pessoa, nascida em 1994, devia chamar-se Universidade Salvato Trigo, porque a instituição confunde-se com o fundador e o fundador confunde-se com a instituição, até aos dias de hoje. A certa altura, confundiram-se tanto um com o outro que dois milhões de euros da Fundação Fernando Pessoa (há sempre uma fundação pelo meio) foram utilizados em benefício de Salvato e da sua família. O magnífico reitor foi condenado a 13 meses de prisão por desvio de fundos, com pena suspensa, pelo Tribunal da Relação do Porto. Isto em 2021. Em 2022, foi a vez de a própria universidade ser condenada a pagar 362 mil euros ao fisco, após terem sido detectados “vários vícios na contabilidade da instituição”.

Nada que tenha abalado o prestígio de Salvato Trigo. Aliás, o processo teve uma espantosa originalidade, sobre a qual Bárbara Reis escreveu em 2018 o artigo “A cadeira vazia de Salvato Trigo”. Cito: “Em 44 anos de democracia, ninguém se lembra de um crime de ‘colarinho branco’ – o caso do reitor – julgado com ‘exclusão de publicidade’.” Ou seja, o julgamento de Salvato Trigo decorreu à porta fechada para preservar o seu “prestígio”. A defesa alegou que as notícias podiam causar “danos irreparáveis” à universidade e aos seus alunos, e o Tribunal da Relação impediu o acesso do PÚBLICO ao processo-crime em fase de julgamento, atirando pela janela um princípio basilar do Estado de direito.

Por aqui se vê o peso que o senhor reitor tem no Porto. Um peso de que o próprio Manuel Pizarro beneficiou em 2013, quando Salvato Trigo (já em tempos mandatário distrital das candidaturas presidenciais de Mário Soares e Jorge Sampaio) anunciou que abandonava a comissão de honra de Luís Filipe Menezes na corrida à Câmara do Porto para passar a apoiar Pizarro. Houve direito a almoço à frente das câmaras de televisão e tudo.

Os problemas da escolha estão à vista. Das 40 vagas para estudantes de Medicina que vão abrir em 2023, 30 são “destinadas a alunos estrangeiros”. O Hospital de Gaia, que pela sua dimensão era essencial para credibilizar a candidatura, veio dizer que não tem nada que ver com ela. E a Ordem dos Médicos pediu à agência de acreditação que revogue a aprovação do curso. Juntem a isto os métodos que a Universidade Fernando Pessoa usou em França para se tentar instalar na área dos estudos médicos, até ser forçada a encerrar pelos tribunais, e há uma certeza que fica: a história de como o infatigável Salvato Trigo recebeu o curso de Medicina com que sempre sonhou está ainda toda por contar.»