Porque na Vida há maus e bons momentos. Porque no dia-a-dia há acontecimentos que nos afectam positiva ou negativamente.
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segunda-feira, 29 de julho de 2024
quarta-feira, 28 de julho de 2021
Não saber ganhar
Com a devida vénia, eis a crónica de Miguel Esteves Cardoso publicada hoje no jornal "Público",
«O atleta britânico Bradley Sinden ganhou uma medalha de prata em Tóquio no taekwondo mas recusa-se a celebrá-la. Diz que queria a medalha de ouro e que a medalha de ouro era dele e que foi ele que a entregou ao adversário.
A atleta britânica Bianca Walkden ganhou uma medalha de bronze em Tóquio mas diz que não é a cor que ela queria, que talvez a pinte quando chegar a casa, porque ninguém vai saber. Desiludida por não ter ganho a medalha de ouro, disse que “se sente um bocado morta por dentro e que isso está a matá-la”.
Onde é que já tínhamos visto isto? No Euro. Depois da derrota na final, contra a Itália, a equipa da Inglaterra recusou-se a celebrar o segundo lugar, tirando imediatamente a medalha que recebeu.
Nem quero acreditar que são ingleses a portar-se assim. Não é por acaso que a expressão fair play é dita em inglês. Os ingleses não se limitaram a inventar muitos dos desportos mais populares. Juntamente com as regras, inventaram, para acompanhá-las, o sportsmanship.
O sportsmanship define-se como saber jogar com respeito pelo adversário e pelo próprio jogo. Mais curta ainda é esta definição: é saber perder. Saber perder e saber ganhar mas, sobretudo, saber perder.
O mau perder não é apenas uma falta de respeito pelo vencedor. Recusar uma medalha de prata ou de bronze é desrespeitar todos os atletas que conseguiram ganhar medalhas de prata e de bronze.
Pior ainda: é desrespeitar todos os atletas que conseguiram um triunfo dificílimo – serem seleccionados para os jogos olímpicos.
Não é uma questão de gerações. A atleta britânica Lauren Williams também queria uma medalha de ouro no taekwondo. Mas recusou-se a fazer birra. E disse: “É uma medalha de prata. Não é mau, pois não?”
Não, não é. É maravilhoso.»
terça-feira, 22 de junho de 2021
quinta-feira, 11 de março de 2021
sexta-feira, 19 de abril de 2019
quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
Katelyn Ohashi, ginasta norte-americana
Katelyn Ohashi voltou à ribalta da ginástica norte-americana no passado domingo. A atleta da UCLA, deslumbrou o júri do "Campeonato Nacional de Ginástica Universitária" com uma rotina perfeita.
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
segunda-feira, 16 de julho de 2018
A actual selecção francesa, campeã mundial de futebol, é multiétnica e multicultural
Numa altura em que a questão das migrações está no topo da agenda mundial, a vitória da França no campeonato mundial de futebol, cuja equipa é composta por 78% de descendentes de imigrantes, é uma sólida contestação às lideranças xenófobas e intolerantes.
terça-feira, 26 de junho de 2018
E depois do Uruguai, adeus Mundial de Futebol...
A saborosa crónica de opinião da autoria do humorista Manuel Cardoso, publicada hoje, com o título "Adeus, Uruguai", no SAPO24. Com a devida vénia,
«A sorte sorriu a Portugal. Pusemos-nos a jeito tanto para ficar tanto em primeiro, como em terceiro, mas o risco compensou. Ou seja, Portugal fez questão de desperdiçar o primeiro lugar no grupo por uma boa causa. Para já, porque o primeiro milho é para os pardais e como nação insegura dificilmente aguentaríamos a pressão de vencer o grupo. Depois, porque apanhar uma tremenda bebedeira no dia de ontem não era minimamente recomendável – justificou-se apenas o ficar levemente tocado, dado o dia da semana. Para além disso, porque assim vamos apanhar uma equipa melhor, o que é melhor para nós, em vez de uma pior, que seria pior. Confusos?
Ora bem, não sei se estão a par desta realidade, mas Portugal não joga nada. Muito pouco. O que não tem mal, até porque esta recusa em jogar à bola acontece também em várias seleções com mais qualidade individual do que a nossa (leia-se, qualidade individual coletiva, porque qualidade individual de um só indivíduo ninguém tem a mais do que nós).
Portugal joga tão pouco que talvez desse para ganhar à Rússia. Talvez desse. Conseguem entender o perigo? A seleção joga tão pouco que não seria claramente, mas apenas ligeiramente favorita frente à Rússia. Isto seria terrível. Entrar em campo com um tangencial favoritismo, fruto do histórico e do estatuto da equipa, acoplado a um futebol mediano que não justifica nenhuma expectativa alta.
Contra o Uruguai é diferente: Portugal não joga um chavelho e, por essa razão, parte claramente atrás. O Uruguai tem jogadores de classe mundial, joga à bola, fez nove pontos. Perfeito. Tudo montado para que acabem a ir para casa após uma chouriçada, sorte, ressaltos, três expulsões, ir a penáltis, sei lá, alguma produção do destino que leve a que a superioridade tática tenha zero influência no resultado final.
É o que se quer, em 2018 como se quis em 2016 – apostar que uma narrativa surrealista contudo fatal se desenrole à nossa frente sem que a pobreza tática ou a beleza do jogo do adversário nela interfiram.
Não podemos contar que vamos ganhar isto, sei lá, com a ideia de futebol do FM, do Visão de Mercado, do Rui Malheiro, do Carlos Daniel, do Luís Freitas Lobo, percebem? Isto é a seleção, pá. Vamos limpar isto com o futebol do Sr. Carlos da tasca da Avenida de Paris.
Não queremos saber de basculações ou se os apoios estavam bem colocados (nunca percebi porque é que os comentadores especializados deste desporto se referem a “pés” como “apoios”, será que quando terminam uma relação foi porque a namorada lhes “deu com os apoios”?). Queremos saber quem é que vai mandar um pastel lá para dentro e a que horas, queremos saber quem é que vai tirar o golo dos outros em cima da linha por instinto, queremos saber quem é o gajo que vai dizer ao Suárez que a irmã dele anda metida com um paraguaio para que ele lhe crave os caninos e acabe expulso.
Portugal dificilmente jogará melhor do que isto e ainda bem. Um futebol rendilhado afastaria as pessoas que não sabem o que é que futebol rendilhado significa – e estamos a falar de uma fação numerosa do apoio à seleção. Foi assim há dois anos, será assim agora: Portugal pratica um futebol que deposita toda a confiança na falta de confiança. Quanto a nós, estarmos parcialmente convencidos de que os nossos voltam para casa já no sábado é o melhor que podemos fazer enquanto adeptos. Provavelmente, é da maneira que eles só regressam dia 16.»
sexta-feira, 15 de junho de 2018
terça-feira, 22 de maio de 2018
O microfone dado a Bruno de Carvalho, por vários canais de televisão, na tarde de sábado, foi uma demissão do jornalismo
Dois pequenos excertos da crónica intitulada "A magia e o veneno na mesma tarde" de Francisco Sena Santos, publicada ontem no "SAPO24". Com a devida vénia,
.../...«É sabido que o jornalismo de qualidade é um pilar da democracia. Contribuir para uma sociedade informada, dar os elementos que ajudam cada pessoa a entender o que de relevante se passa à sua volta, permitir perceber as mudanças, é uma responsabilidade principal dos jornalistas. A missão implica que o jornalista estude de modo aprofundado tudo o que está em causa na matéria que tem para contar, de modo a poder enquadrá-la.
Os casos que nos últimos dias envolvem o Sporting ultrapassam o habitual envenenamento que sai do futebol falado nas tertúlias nas televisões. A violência e os choques desencadeados tornaram, evidentemente, imperioso relatar e analisar o que está a acontecer.»
.../...«O tratamento das várias vertentes do “caso Sporting” impõe-se, mas é preciso ter em conta os limites do razoável. O microfone dado a Bruno de Carvalho, por vários canais de televisão, na tarde de sábado, para que ele dissesse tudo o que lhe apetecia, ao longo de duas penosas horas, foi uma demissão do jornalismo. É facto que havia a expectativa de algum anúncio relevante, mas cedo se percebeu que Bruno de Carvalho não iria anunciar a retirada. Perante a evidência de ausência de notícia, não fez sentido que a transmissão em direto tenha continuado. É de desejar que este caso possa ser discutido nas redações para que o relato jornalístico não fique assaltado por um demagogo que, com argumentação degradante e lastimável uso da língua portuguesa, consegue ocupar o espaço de reportagem com propaganda ridícula. Muitas vezes vemos ser cortada a palavra, em nome do tempo útil, a quem tem conhecimento com valor para dizer. Tudo o que Bruno de Carvalho disse naquelas duas horas caberia em dois minutos de relato de um repórter. Tempo mais do que suficiente para contar duas horas de envenenamento.».../...
domingo, 20 de maio de 2018
O futebol em Portugal
Com a devida vénia, eis um excerto do artigo de opinião de João Miguel Tavares publicado ontem no jornal "Público", com o título "O futebol português é um meio feio, sujo e mau",
.../...«O futebol só pode ser consumido como as salsichas – ignorando como são feitas, para nos poderem saber bem. Não é possível assistir ao que se passa nas negociatas das transferências, nas queixas sobre os árbitros, nas picardias entre directores de comunicação, e achar que o futebol é um excelente meio para atrair pessoas sérias. Não é. A probabilidade de haver gente profundamente honesta dedicada ao negócio do futebol em Portugal é mais ou menos semelhante à probabilidade de haver gente profundamente honesta dedicada ao negócio das bebidas alcoólicas na América dos anos 20. Isso significa que toda a gente é igual? Claro que não - tal como em Chicago nem toda a gente era Al Capone.
Contudo, não há dúvida de que o futebol tem tudo para ser um lugar mal frequentado: milhares de milhões de euros transaccionados anualmente; passes de miúdos sem barba nas mãos de agentes todo-poderosos; expectativas de lucros astronómicos (em quantas actividades económicas legais o preço de um activo pode valorizar 1000% em oito ou nove meses?); exércitos de gandulos ligados às claques desportivas a servirem de retaguarda intimidatória; ligações fortes ao poder político central, às autarquias e até mesmo à polícia e às magistraturas; presidentes com tiques de soba a agirem praticamente sem escrutínio; ocupação do espaço mediático em programas recordistas de audiência e com representantes a papaguear a cartilha dos clubes; e tudo isto, claro está, embrulhado num fanatismo de massas, que faz com que muitas pessoas respeitáveis percam qualquer réstia de espírito crítico quando se trata de falar dos clubes do seu coração. Gostar de bola? Acho impecável. Também gosto muito. Pôr as mãos no fogo por quem quer que seja que mande em clubes de futebol? Jamais.»
quinta-feira, 17 de maio de 2018
Bruno de Carvalho está a mais no Sporting Clube de Portugal
Artigo de opinião de João Marcelino, intitulado "Que se demita, e já!", publicado no "Jornal Económico" do dia 15 do corrente mês. Com a devida e merecida vénia,
«Bruno de Carvalho não tem condições, de educação e cultura, para a função de Presidente do Sporting Clube de Portugal. É isso, aliado ao voluntarismo e à paixão mais doentia, que ele confunde com amor ao clube, que está a desaguar na realidade das últimas horas.
A invasão do centro de Alcochete, com a agressão a jogadores, treinadores e restantes funcionários ligados ao dia a dia da equipa de futebol, é uma tragédia desencadeada pela incompetência social de Bruno de Carvalho. É evidente que ele não domina nem tem consciência dos fenómenos que desencadeia com as suas palavras e acções.
Este acto criminoso na Academia de Alcochete, com o ataque de 40 delinquentes à equipa, decorre daquilo que tem sido a gestão do clube nas últimas semanas e da guerrilha que o presidente, de forma leviana e ignorante, lançou contra a sua própria equipa.
Bruno de Carvalho está a mais no Sporting Clube de Portugal. Deveria demitir-se de imediato. E, em caso de que não queira fazê-lo de livre vontade, reconhecendo as suas responsabilidades pessoais neste clima de terror instalado à volta do clube, deveria ser demitido o mais rapidamente possível em Assembleia Geral. Marta Soares já não tem álibi para prolongar a sua colaboração com este clima de destruição do clube, que inclui até as recentes suspeitas de compra de jogos do campeonato de andebol do ano passado.
O Sporting pode estar na véspera de uma crise inimaginável: ver todos os seus principais jogadores rescindirem o contrato com justa causa; de perder centenas de milhões de euros! De ver os melhores jogadores reforçarem rivais a custo zero. De partirem sem representarem mais-valias para o clube.
Mais: depois de situações destas, que jogadores de qualidade poderão querer representar o Sporting nos próximos anos? De assinar por um clube em que os adeptos fanáticos das hordas mais organizadas reagem a impulsos típicos das zonas mais perigosas do mundo?
Bruno de Carvalho tem poucas horas para refletir e tirar as ilações devidas, porque não é possível ver as coisas de outra forma: o Sporting vive uma situação de verdadeiro PREC.
O presidente é um adepto alucinado, incapaz de entender que no futebol existem três resultados possíveis e que nenhum investimento do mundo pode alterar essa situação. Se os orçamentos fossem tudo, não haveria competição desportiva. Apresentavam-se as contas e atribuíam-se os títulos automaticamente.
Felizmente, não é assim.
Infelizmente, Bruno da Carvalho pensava que era assim. E deu nisto.»
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Isto sim, é desportivismo!
Duas lendas do futebol mundial a demonstrar fair-play no final do encontro entre "Juventus" e "Real Madrid".
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Em Portugal, o futebol não é para gente séria...
O oportuno editorial publicado hoje no jornal "Público", intitulado "Este desporto não é para gente séria", da autoria de Diogo Queiroz de Andrade. Com a devida vénia,
«Em Portugal o futebol já não se joga nas quatro linhas. Joga-se nas catacumbas dos estádios, nos escritórios de advogados, em sucursais de offshores, nos bastidores de restaurantes e na barra dos tribunais.
O clima de suspeição e javardice que está montado na pirâmide do futebol português é insuportável para quem queira apenas fruir um jogo extraordinário, que se vive em períodos de 90 minutos e que se joga uma ou duas vezes por semana.
O que têm em comum os líderes dos três maiores clubes de futebol? Muita coisa. Todos são, ou já foram, acusados de alguma forma de corrupção, associação criminosa ou fuga ao fisco. Todos têm acólitos que espalham pelos canais de televisão o discurso de ódio e a figura triste que os próprios não sabem ou não conseguem fazer. Todos têm um jornal de preferência à conta de quem vinculam fake news de maior ou menor dimensão. Todos tomaram várias decisões altamente questionáveis que delapidaram o património do seu clube, tendo todos sido acusados de se aproveitarem dele de uma forma ou de outra. Todos têm relações especiais com um par de empresários, com quem fazem negócios mirabolantes que espantam o mundo civilizado. Todos são assistidos ou acompanhados por capangas, normalmente associados às claques, que actuam sempre que necessário. Todos praticam um discurso em que reclamam ser impolutos enquanto acusam o vizinho de corrupção – e isto é como nas religiões monoteístas, se há cinco correntes espirituais que acreditam num só deus, e se ele é diferente do deus proposto pelas restantes, pelo menos quatro delas estarão erradas (e o mais provável é que estejam as cinco).
E não, este artigo não se dirige a nenhum clube em especial – aplica-se rigorosamente por igual aos três grandes. E infelizmente é bem possível que se aplique também aos quatro médios e aos 20 ou 30 pequeninos. Aparentemente, quem não joga este jogo sujo ao alto nível está ansioso para lá chegar de forma a poder fazê-lo também.
Quem queira apenas sentar-se em frente à TV ou num estádio e desfrutar de um espectáculo extraordinário tem cada vez menos formas de o fazer sem ser contaminado com a porcaria que envolve esta actividade. Pior: as crianças que praticam este desporto e têm a esperança de nele evoluir – e que são centenas de milhares – não têm noção que funcionam como mero alimento para uma máquina trituradora que serve para engordar alguns corruptos e explorar muitos mais. É uma pena.»
domingo, 7 de janeiro de 2018
Retrato actual do futebol em Portugal e auto-retrato futebolístico do autor
A crónica de opinião de Alberto Gonçalves publicada ontem no jornal online "Observador", sob o título "Uma crónica mais ou menos sobre futebol". Com a habitual vénia,
«Por regra, misteriosamente ausente das recomendações da Protecção Civil e da Direcção-Geral da Saúde, fujo das televisões nacionais com o afinco com que corro da gripe. Não escapei de nenhuma. Há dias que consumo quantidades inusitadas de lenços de papel e há dias que não me sai da cabeça certa reportagem.
A propósito das trafulhices em que o nosso portentoso futebol é pródigo, um canal qualquer passava em repetição as imagens do que presumi ser um convívio, talvez já antigo, entre o presidente do Benfica e uma data de deputados da nação. Numa sala vasta, o tal presidente passeava bigode, soberba e classe, o exacto tipo de classe que, inspirados por sofisticação paleolítica, os “agentes desportivos” têm vindo a aprimorar. Os deputados, de todos os partidos, passeavam devoção e aquele tipo de excitação que atinge a plebe da Coreia do Norte ante a proximidade do Líder. À passagem de Sua Excelência, que mal lhes dirigia um olhar, aqueles bonequinhos derretiam-se em sorrisos e precipitavam-se para disputar a honra de um cumprimento. Os mais ousados arriscavam uma “selfie”. Era evidente a importância que atribuíam ao momento. Também era evidente que a espécie humana dificilmente consegue descer tanto.
Esclareço que, para mim, é irrelevante o “benfiquismo” do repulsivo evento acima. Suponho que haja eventos similares, e similarmente repugnantes, com deputados do Porto e do Sporting (dado que a raça aprecia notoriedade, é pouco provável que muitos parlamentares compareçam em pândegas do Arouca). Embora descenda de jogadores e treinadores da bola, goste de rever habilidades de Pelé, Cruyff ou Futre e goste imenso de jogar a ocasional partida (a extremo-direito, sem surpresas para os detractores desta coluna), dedico aos clubes um desinteresse só comparável ao dos meus cães pelo Orçamento de Estado (é nulo, para não restarem dúvidas). Em criança, dizia-me, sei lá porquê, “do” Benfica. Hoje, sei lá porquê, prefiro que ganhe o Porto, desde que isso não me obrigue a ver jogos e, Deus misericordioso me livre e guarde, a discuti-los.
Sou, aparentemente, um caso raro. E, dado que nunca ouvi os meus amigos discutirem futebol, estou aparentemente rodeado de casos raros. A norma, pelo menos a acreditar no universo dos canais “generalistas”, é as pessoas não fazerem outra coisa. Quando não se empenha em louvar o governo, publicitar os “afectos” do Presidente ou, na CMTV, dissecar crimes suburbanos, a programação televisiva é quase integralmente preenchida pelo “fenómeno” futebolístico. O fenómeno, no sentido que se dava às atracções de circo, é inegável. Metade do tempo é investido a transmitir a bela retórica de dirigentes, “místeres” e adeptos, as deslocações dos autocarros de sítios para sítios e, nos canais que não pagam os “direitos”, quatro ou cinco pasmados a relatar um jogo inteirinho. O tempo que sobra (cerca de 40 horas por serão) é para a “análise”.
A “análise” é peculiar. Nela, deputados, “politólogos”, juristas, médicos, músicos, empresários, jornalistas, ex-praticantes e o que calha tentam provar a superioridade divina do clube da respectiva preferência e, por extensão, a sua própria superioridade. No processo, indivíduos adultos trocam o que julgam ser argumentos a propósito de penáltis, foras-de-jogo, cartões amarelos e, em suma, a relevantíssima “questão” da arbitragem. Um leigo olha para os árbitros e constata apenas que usam nomes esquisitos, gel e patilhas fininhas. Os especialistas gastam dias a fio na interpretação de cada apitadela e, recentemente, de cada intervenção do VAR, acrónimo alusivo ao “vídeo-árbitro”, de facto um sujeito com gel a fitar um ecrã. A intervalos regulares, os especialistas lembram que a missão dos árbitros consiste em obstar à glória do clube deles. Porém, lembram de seguida, nada os vergará no caminho para o “título” e acabarão a “época” a celebrar a profunda vileza da porção da humanidade que não simpatiza com o Benfica/Porto/Sporting (riscar os que não importam e, aliás, deviam ser exterminados a golpes de “very-light”). Às vezes, um especialista que fracturaria o fémur num desafio de dominó, entra em franca alucinação e começa a imaginar-se membro da equipa que apoia: “Eu perdi por culpa do bandeirinha”; “Eu joguei impecavelmente”; “Eu serei campeão”; “Eu chamo-me Napoleão”; etc. Conversa de café? Com certeza, se o café em causa for o do Magalhães Lemos.
Não quero insultar ninguém, mas é plausível que quem se presta a figuras idiotas seja realmente idiota. Alguns nem esse estatuto atingem e, ao que consta, precisam que terceiros lhes escrevam as “opiniões” que exibem com orgulho. O futebol falado atrai tanta gente justamente por ser simples e permitir a criaturas igualmente simples a ilusão de que dominam um assunto. Se disserta sobre os refugiados sírios ou o sufoco fiscal, a maioria dos comentadores produz um amontoado de clichés capaz de envergonhar uma criança. Nas tretas da bola, os clichés dão pontos e a vergonha é conceito obscuro. Os especialistas em futebol são “especiais” na acepção politicamente correcta do termo. E se não são, parecem.
Na perspectiva optimista, há nisto um estimável potencial de integração: enquanto “debatem” as “polémicas” da jornada, os tontinhos não andam na rua e na droga. A perspectiva pessimista nota que os tontinhos são inúmeros e, o que é pior, andam no Parlamento e em lugares de poder e influência. A perspectiva apocalíptica desconfia de que a proliferação de tontinhos exige um vasto público que os consome e legitima, um público que essencialmente não se distingue dos participantes do “Mais Bastidores” e do “Dia Seguinte”, um público representado na perfeição pelos deputados que elege, um público cuja aptidão para engolir a palha futebolística é aquela que o leva a engolir tudo a pretexto de tudo, um público que define uma sociedade e um país que não batem bem da bola.»
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
domingo, 30 de abril de 2017
Marcelo: uma selfie com as claques?
Do artigo de opinião de Filipe Luís, Director Executivo da revista "Visão", publicado nesta revista no passado dia 28 de Abril, com o mesmo título, alguns excertos. Com a devida vénia,
«Combater a conflitualidade na sociedade portuguesa foi, na campanha eleitoral, e tem sido, no terreno, uma das prioridades do Presidente da República. A principal ferramenta do Chefe de Estado, para atingir esse desiderato, é a da "proximidade", conforme voltou a vincar, numa importante entrevista à Antena 1, esta semana. Confrontado com as críticas de que aparece em demasiados sítios e intervém demasiadas vezes sobre demasiados assuntos, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu-se com um argumento irrebatível: "Eu sou mesmo assim".
Pois bem: o Presidente da República é de um silêncio ensurdecedor, relativamente ao clima de guerra que existe numa importante atividade em Portugal e naquela que mais emoções e alarme social é suscetível de produzir: o futebol. Marcelo nunca teve uma palavra de alerta, apaziguamento ou pedagogia sobre a violência em torno do futebol, nunca apareceu no meio de uma claque a tirar selfies, nunca procurou aproximar fações desavindas, nem visitou a família do adepto italiano morto junto do Estádio da Luz. Nem ele, nem qualquer governante. O fenómeno tem passado completamente ao lado do poder político e das instituições do Estado. Nem Governo, através da tutela do Desporto ou da Administração Interna, nem Presidente, nem Assembleia da República, nem geringonça, nem oposição. Já houve uma morte. De quantas mais estão à espera?
O poder político não pode demitir-se. Compreende-se que evite intervir no futebol, temendo que seja, como é, um ninho de vespas. Em vez disso, políticos de vários quadrantes aparecem em tribunas de honra ao lado de presidentes de clubes, caucionando a sua atuação de principais responsáveis por esta selva. Será que o tema é aflorado naqueles camarotes presidenciais? Já moveram uma palha para sentar à mesma mesa dirigentes desportivos, chefes de claques ou líderes da opinião pública desportiva que todos os dias incendeiam o ambiente, mais um bocadinho, em comentários televisivos?».../...
terça-feira, 28 de março de 2017
Um aeroporto chamado Cristiano Ronaldo tem algum sentido?
«Vamos lá à história: um aeroporto chamado Cristiano Ronaldo tem algum sentido? Homenagem à Madeira? Tristão Vaz Teixeira, João Gonçalves Zarco, Bartolomeu Perestrelo ou Cristóvão Colombo (que esteve em Porto Santo). E, sim, Alberto João Jardim, a quem se deve a Madeira moderna, que hoje conhecemos – mas o mais perfeito seria Aeroporto Internacional do Funchal.
O nome Funchal é bonito, tal como a cidade (Lisboa e Porto também seriam perfeitos para Lisboa e Porto). Mas o problema não é Cristiano Ronaldo (que podia ser o escolhido para um grande estádio). É a política de atribuição de nomes e a ideia de ‘historicizar’ figuras contemporâneas e recentes para tudo quanto é lugar.
A vontade de fazer história com a ‘emoção do momento’ há de levar-nos a povoar vários panteões nacionais, a mudar nomes de pracetas e ruas – e, com um nadinha de esforço, a considerar obtuso tudo o que não esteja ativo no Twitter. Ronaldo tem 32 anos, é um enorme talento desportivo. Devia ser ele próprio, num rasgo de talento humano, a recusar amavelmente a honraria.»
(Opinião - "Vamos lá à história: um aeroporto chamado Cristiano Ronaldo tem algum sentido?" - de Francisco José Viegas, publicada hoje no jornal "Correio da Manhã")
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Valeu a pena, Moniz Pereira
Aos 95 anos, morreu ontem o "Senhor Atletismo", Mário Moniz Pereira. Moniz Pereira treinou atletas como Carlos Lopes e Fernando Mamede e era considerado o responsável por várias medalhas olímpicas e mundiais.
A história da vida de Moniz Pereira confunde-se com a do atletismo, que amava como ninguém, e também com a do fado. Mesmo depois de fazer "quatro vezes vinte mais dez", como gostava de dizer, manteve o sorriso de felicidade e citava o refrão do fado, de sua autoria, que o celebrizou, e que ofereceu, há muitos anos, ao fadista Carlos Ramos: "Valeu a pena".
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