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sábado, 17 de agosto de 2019

A greve dos motoristas de pesados

Com a devida vénia, transcreve-se o editorial do jornal "Público" de hoje, da autoria de Manuel Carvalho,

«Ao fim de uma semana de luta inglória, os motoristas deram-se conta de que a radicalização que ensaiaram por momentos não levava a lado nenhum. A sua sorte estava traçada a partir do momento em que o Governo criou o mais impressionante processo de anestesia política em muitos anos, desde que a justiça deu cobertura para eventuais acções musculadas contra os grevistas, logo que se percebeu que por justa que seja a luta dos sindicatos há nas suas reivindicações e nos seus métodos um radicalismo insuportável. Com gasolina nos postos, com a autoridade do Estado reforçada, com a hipocrisia da esquerda a encontrar escapes para a sua demissão, o PSD e CDS em país em férias e Marcelo enfastiado com a capitalização política do PS, o sindicato de Pardal Henriques prepara-se para uma capitulação anunciada.

Importa agora aproveitar as negociações para o fim decisivo da greve e tirar consequências do que se passou. Um Governo que aprova horários de 35 horas para funcionários públicos e não manifesta qualquer incómodo com contratos colectivos de trabalho que podem chegar às 60 horas semanais (pelo contrário, usou os factos como prova da falta de razão dos motoristas) não pode dizer que trata todos os portugueses por igual. Uma esquerda que distingue greves de acordo com o poder de controlo que exercer sobre elas não pode vir agora dizer que a culpa é das empresas e dizer como devem ou não devem transportar as suas mercadorias. Ainda não chegámos à Venezuela para que sejam os ministros a dizer o que podem ou devem fazer as empresas.

Importa agora que nas negociações todos assumam posições de bom senso e saibam determinar as suas responsabilidades. O sindicato e Pardal Henriques devem aprender que a sua arrogância, alimentada pelas perturbações da greve de Abril, é inaceitável em democracia. A ANTRAM deve reconhecer que o modelo de remuneração baseado em salários baixos disfarçados com horas extra que fogem à alçada da Segurança Social é indigno num país que continua longe dos padrões europeus. E o Governo e os partidos que o apoiam devem olhar com outro cuidado para o país que existe para lá dos funcionários públicos representados pelos sindicatos da CGTP. Sim, há portugueses que têm de trabalhar 60 horas por semana para ter um salário digno. Quanto à oposição, não se sabe sequer o que reclamar. Rui Rio veio ontem a terreiro fazer prova de vida com argumentos atendíveis, mas num episódio desta gravidade seria de esperar mais, muito mais, do principal partido da oposição.»

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Os grevistas deviam de ser obrigados a estar no local de trabalho

O artigo de opinião de Vítor Rainho com o mesmo título, publicado hoje no "Jornali". Com a devida vénia,

«É do senso comum que as pessoas têm direito a lutar por melhores condições de vida e de trabalho, recorrendo por isso, em última instância, à greve. Quando alguém deixa de trabalhar já sabe que outros serão prejudicados, seja na justiça, na saúde, no ensino, nos transportes ou nos guardas prisionais, só para dar alguns exemplos mais recentes. Não é preciso ser um génio para perceber que a distribuição da riqueza não é a mais justa em Portugal – ainda estamos muito longe dos países nórdicos, embora no que diz respeito às proibições gostemos de os ultrapassar. O Estado adora fazer leis para beneficiar uns e prejudicar outros – há dias aqui no i Luís Menezes Leitão recordava a obrigatoriedade obtusa de os condutores andarem com palas nas rodas traseiras, que muito contribuiu para encher os cofres a uns tantos e prejudicar milhões, já que essa lei desapareceu passado uns tempos.

Mas voltemos às greves: por que razão muitos sindicatos optam por fazer os seus protestos à sexta-feira ou em datas festivas? Faz algum sentido no Natal haver greve dos transportes públicos, prejudicando aqueles que não têm viatura própria de se deslocarem às suas terras? Por que razão os grevistas não são obrigados a permanecer nos locais de trabalho, apesar de fazerem greve? Se assim fosse ninguém diria que tentam prolongar os fins de semana ou “folgar” nas datas festivas. No fundo, fazem o que muitos sindicatos da polícia usam como expediente: as associações sindicais que têm mais dirigentes do que associados aproveitam-se da lacuna da lei para poderem “inventar” trabalho sindical às segundas ou sextas-feiras e prolongarem o seu fim de semana ou, lá está, para não trabalharem nas datas festivas.

Também não é preciso de ser um génio para saber que as greves prejudicam os mais pobres, como também relembrava há dias aqui no i Bagão Félix. Haverá caso mais gritante do que o da saúde? A maternidade pode estar a meio gás para os pobres, mas as clínicas privadas estão a todo o gás para os mais endinheirados. Alguma coisa terá de ser feita para alterar este estado de chico-espertices.»