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terça-feira, 30 de maio de 2023

86% dos jovens portugueses estão viciados nas redes sociais, acima da média europeia


«O número de jovens portugueses viciado nas redes sociais é superior à média europeia. Um estudo sobre o impacto destas plataformas na saúde mental revelou que 86% dos jovens portugueses admite estar viciado, face aos 78% da média europeia. Além disso, 90% já as utiliza desde os 13 anos.

O estudo hoje divulgado, desenvolvido pela Dove em Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Brasil, Estados Unidos, Canadá, inquiriu 1.200 jovens e pais em Portugal, e concluiu que 80% dos jovens prefere comunicar pelas redes sociais do que pessoalmente.

Dois em cada cinco jovens reconhecem que as redes sociais têm impacto negativo na sua saúde mental, três em cada quatro viram conteúdos que mostravam “corpos perfeitos e irrealistas” e concordam que as redes sociais têm o poder de os fazer querer mudar a sua aparência, e cerca de metade (45%) observou conteúdos que incentivam comportamentos de restrição ou distúrbio alimentar.

Quanto aos pais, 45% sentem-se culpados por não protegerem suficientemente bem os filhos do que veem e ouvem diariamente online. 52% acredita que as plataformas têm mais poder para moldar a autoestima e confiança dos seus filhos do que eles enquanto pais e 40% confirma que os conteúdos têm impacto negativo na saúde mental. Além disso, mais de 85% concorda que as redes sociais precisam de mudar e que é necessário adotar leis para responsabilizar as plataformas pelos danos que estão a causar à saúde mental dos jovens.

O trabalho agora conhecido é apoiado no lançamento de uma petição internacional em colaboração com a Mental Health Europe, uma rede europeia que trabalha na prevenção de problemas de saúde mental, que pretende levar o tema da segurança ‘online’ dos jovens ao Parlamento Europeu e legislar as redes sociais.»

*Pesquisa e texto pela jornalista estagiária Raquel Almeida. Edição pela jornalista Ana Maria Pimentel

*Com Lusa

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

É preciso "fazer justiça ao sentido do texto" da epístola de São Paulo

«Passagem lida na missa no passado domingo tornou-se viral nas redes sociais. Perante as comparações com a situação dos direitos das mulheres no Afeganistão, órgão de cúpula da Igreja Católica em Portugal diz que “os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a actualizá-los.”


“Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos.” Esta foi a passagem bíblica de uma epístola de São Paulo - integrava as leituras da eucaristia católica do passado domingo - que se tornou polémica nas redes sociais, muito impulsionada pela projecção dada pela transmissão televisiva da cerimónia católica. Em muitos dos comentários feitos apontavam-se semelhanças com os direitos humanos das mulheres no Afeganistão, agora que os talibãs regressaram ao poder.

A polémica levou a Conferência Episcopal Portuguesa a divulgar uma nota de esclarecimento sobre a epístola muito usada nos casamentos católicos, na qual, além de reconhecer que a passagem teve “ecos diversificados sobre o seu sentido e oportunidade, justamente lidas no contexto vivo e actual das perspectivas preocupantes da situação das mulheres no Afeganistão”, defende que é preciso ver com atenção alguns aspectos da leitura de São Paulo, procurando fazer justiça ao sentido do texto”.

Para o órgão de cúpula da Igreja Católica em Portugal, “o que causa ‘escândalo’, nos dias de hoje, é o conceito de ‘submissão’ proposto à mulher”. A CEP diz que “não se trata, porém, de algo exclusivamente aplicada às mulheres, mas a todos. A leitura começa precisamente por dizer: ´Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo’. Em Paulo, esta submissão não significa menor importância ou subserviência, mas o dar prioridade aos outros, como forma de atenção e cuidado; não centrar a vida e o pensar em si próprio, mas no amor que deve regular todo o relacionamento entre pessoas”.

A Conferência Episcopal defende ainda ser preciso ter em conta que “Paulo se situa no contexto legal do direito familiar romano, que concedia melhores direitos às mulheres do que a maioria das culturas da época, mas que não deixava de pôr em relevo o papel do marido como ‘pater familias - pai de família’, como titular da família no seu conjunto e garantia dos direitos e deveres de cada um e o seu funcionamento relacional e social”. Alerta-se, na nota de esclarecimento, que este quadro permaneceu “nas gerações sucessivas, concretamente no direito português, até há pouco tempo”.

“É à luz de Cristo que se entende a dimensão do amor, até à total entrega e ao dom da vida por aqueles que se ama. E é também essa a norma para a correcta interpretação de qualquer autoridade, representatividade ou primazia. Não se trata de mandar submeter ou depreciar ninguém, mas de cuidar e dar prioridade no dom e no serviço do dia a dia. Na perspectiva de Jesus, bem presente em Paulo, a liderança é serviço e dom de si mesmo, pois Ele veio “não para ser servido, mas para servir e dar a vida”. O verdadeiro exemplo e medida de submissão e de serviço, como dom e amor, é o próprio Jesus, para os esposos e para qualquer outro membro da família e da Igreja”, defende a CEP.

No comunicado, a CEP “responde” ainda a quem questiona porque não se muda o texto, visto acontecer que o mesmo seja alvo de “interpretações incorrectas”. “A pergunta tem a sua razão de ser, mas é claro para a Igreja e para quem quiser interpretar textos e tradições com origem noutras culturas e noutros tempos: os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a actualizá-los”, defende a Conferência Episcopal, que recorre inclusivamente a um exemplo da literatura portuguesa para reforçar esta posição. “Não se mudam os versos épicos de Camões, porque não correspondem à mentalidade actual e até, em alguns casos, podem causar escândalo.”

Tal postura, defende a CEP, “seria cair na arbitrariedade e na ditadura das modas e na imposição da cultura única. É por isso que se estuda Camões nas escolas, para que todos tenham acesso à beleza dos seus versos, dentro dos condicionalismos da sua época”. E remata: “A Palavra de Deus permanece viva e actual e é importante que seja escutada sempre com a sua sonoridade original. O próprio Jesus deu o exemplo de leitura ao relê-la e reinterpretá-la à luz da nova realidade que era Ele próprio e a situação daqueles a quem se dirigia. Conservar a Palavra de Deus e a Tradição é continuar a fazê-las soar em assembleias vivas, como as pautas de música dos grandes autores, constantemente actuais, porque continuam a alegrar corações, a criar sonhos e a gerar estéticas novas, cada vez que se executam”.»

(Fonte da notícia: Semanário "Novo", 26/08/2021)

terça-feira, 24 de agosto de 2021

A "Epístola de São Paulo aos Efésios", o "machismo" e a RTP...

Com a devida vénia, eis o artigo da autoria de Henrique Pinto de Mesquita publicado hoje no "Jornali",


«O Estado é laico. E tem uma televisão pública. Sendo essa televisão do Estado, e sendo este laico, deverá o mesmo transmitir a eucaristia dominical? Há quem defenda que sim, e há quem defenda que não. Os primeiros alicerçam-se no facto da cultura do país ser católica e, consequentemente, o conteúdo televisivo que passa na RTP ser um espelho desta cultura. Os segundos consideram o contrário: ou seja, que um Estado laico não deve, em situação alguma, passar conteúdos religiosos.

A polémica ganhou asas após a leitura da Epístola de São Paulo aos Efésios em direto na Eucaristia Dominical da RTP, cuja passagem – não na íntegra – aqui reproduzimos: “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja” ou “assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos”. Faz sentido, em 2021, o Estado patrocinar uma plataforma que transmita conteúdos como este? E o que quer isto dizer? Deverá ser lido como uma metáfora, ou deverá ser lido à letra?

“A RTP deve ser privatizada” Ao i, Carlos Guimarães Pinto começa por dizer que a “RTP deve ser privatizada para que não se coloquem este tipo de problemas”. Na sua opinião, “é escusado termos uma TV gerida consoante os gostos momentâneos de quem decide dentro do Estado”. Havendo-a, há uma suscetibilidade de “estarmos sempre a dizer se se deve ou não transmitir isto ou aquilo” ou de debatermos “se este programa viola ou não a liberdade das pessoas”.

“Eucaristias são serviço público” Já André Ventura, líder do Chega, e o Padre Edgar Clara consideram a eucaristia dominical “verdadeiro serviço público”. “Sendo o povo português maioritariamente católico, faz sentido que a cerimónia religiosa seja transmitida pelo canal público”, disse ao i André Ventura. Edgar Clara, Padre e Colunista no Nascer do SOL, expande a sua resposta: começa por explicar que a “RTP não é gerida pelo Estado”, mas que se trata de uma “empresa estatal paga com os impostos de cada um”. Neste grupo, explica, incluem-se os católicos: “Os católicos pagam também a televisão publica. E portanto, quem faz, de certa maneira, a TV pública, são os interesses públicos”. O padre, que há uns ano fez parte da equipa que coordena as missas na RTP e trabalhou noutras transmissões de missas no estrangeiro, garante ainda que a “eucaristia é um interesse público em todos países da Europa” e que a transmissão desta não obsta que “existam programas de outras confissões”, como A Fé dos Homens. A Fé dos Homens é um programa televisivo, habitualmente transmitido de segunda a sexta-feira, às 15h00, na RTP2, que concretiza o artigo 25 da Lei de Liberdade Religiosa, onde se garante “um tempo de emissão” às “igreja e demais comunidades religiosas inscritas”. Além deste programa, de periodicidade regular, a “RTP produz programas para cada religião conforme a sua representatividade” (que é aferida através do número de pessoas inscritas no organismo do Estado que regista as religiões), explicando que estes podem ser “a transmissão de cerimónias ou documentários”. “A RTP, de certa maneira, o que faz, é espelhar, nela própria, as sensibilidades de cada um que paga os seus impostos”, sendo que a missa ganha um destaque maior por a “Igreja Católica ser a mais representativa”. Algo que, frisa Edgar Clara, “é do interesse público”, dando exemplos: a “DGS, [no contexto do covid], disse aos idosos para não irem às missas presenciais e para verem-na na TV. Foi a própria DGS que disse, ou seja, é algo também do Estado”.

Outro argumento esgrimido pelo padre Edgar Clara surge da sua experiência enquanto colaborador na Eurovisão: “Na altura em que estava à frente da Eurovisão, uma das coisas que reparámos é que o número de pessoas que via a missa ao domingo era uma coisa incrível. Esse share é enorme. É um interesse mais que do interesse público. É o programa mais visto ao domingo de manhã. Os idosos que estão no lar, onde há um ou dois televisores para cem, não vão ver uma cerimónia muçulmana. Isto sim é do seu interesse”.

Também Alexandre Poço, líder da JSD, deputado do PSD e candidato pelo último partido à Câmara de Oeiras, é favorável à continuidade da Eucaristia Dominical. Ao i, explica que o “o laicismo do Estado implica a separação constitucional e legal das igrejas do Estado” mas não “hostilidade nem o banimento das religiões do espaço público”. E acrescenta: “Uma sociedade democrática consolidada deve respeitar o importante papel das igrejas na vida da sociedade e a sua relevância histórica e cultural”.

Por essas razões, “a transmissão semanal do culto da religião católica num serviço público não o ofende nem perturba”, concluindo para afirmar-se a favor das missas na RTP: “Os católicos portugueses são também dignos de representação audiovisual”.

São Paulo e “as mulheres submissas aos homens” “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja”; “assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” - Epístola de São Paulo aos Efésios. Em 2021, faz isto sentido na televisão pública?

Para Carlos Guimarães Pinto, não – mas compreende a posição de quem não concorda consigo: “Não me parece que faça sentido passar isso numa televisão pública. Isso tem um significado para um conjunto de pessoas, para outro tem outro. E ambos têm razão em queixarem-se porque a televisão é pública e é de todos”. E daí, questiona: “Como é que se faz uma televisão que é supostamente paga por todos? Como é que se conseguem ter conteúdos que não desagradam a ninguém?”. E daí, responde: “É impossível. É por isso que não faz sentido ter uma televisão pública. Faz sentido haver uma televisão paga que só vê quem quer”.

Eduardo Barroco de Melo, deputado socialista, e Alexandre Poço, por sua vez, manifestam-se contra leituras à letra e falam de enquadramento histórico. “Sendo eu católico e percebendo a Igreja Católica Apostólica Romana de forma humana – e portanto com falhas –, não entendo a Bíblia como um conjunto de textos que devam ser lidos ipsis verbis mas sim como um conjuntos de textos que tinham um papel social que bebe dos valores da época, sendo que é preciso interpretá-los à luz desses valores”, afirmou Eduardo. Uma visão partilhada por Alexandre que, apesar de “ser político e não teólogo”, afirma saber, “como qualquer católico, interpretar as passagens bíblicas no seu contexto histórico e à luz da mensagem de amor e da doutrina atual da Igreja”.

Já para Edgar Clara a frase deve ser interpretada à luz do contexto holístico da obra de São Paulo. O padre admite estar a par que São Paulo seja visto como “misógino” por muita gente. Contudo, garante Clara, São Paulo é “absolutamente precursor da igualdade de género”. E expande: “Dizer, há dois mil anos, ‘maridos amais as vossas mulheres’, seria inconcebível para o judaísmo, para a cultura ocidental. Claro que só fica no ouvido a questão das mulheres, por causa da submissão. Mas depois, a certa altura, diz São Paulo: o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa e aí serem só carne”. Nesta passagem, explica o padre, “aquilo que está a dizer São Paulo é que os dois são uma só carne. E se assim são, não há ninguém superior a ninguém”. Apesar de compreender a polémica, acredita que só por “má-fé” ou “burrice” – “como alguém não consiga ler um texto de princípio ao fim sem o contextualizar” – se possam ver ali “coisas que não existem”. “Se quiserem ter má-fé concentram-se na submissão. Se quiserem ter boa-fé, olham para o texto e daí retiram que São Paulo esteja a mandar que os maridos amem as mulheres, as mulheres amem os maridos, e eles sejam um só. Tem que se ler na íntegra” – conclui.»

domingo, 25 de abril de 2021

O 25 de Abril iluminou-se com um discurso do Presidente

É o título do oportuníssimo editorial online do jornal "Público" de hoje, da autoria de Manuel Carvalho. Com a devida e muito merecida vénia, aqui está,

«O Presidente da República dedicou o seu
discurso do 25 de Abril aos 60 anos do início da Guerra Colonial e à memória histórica, e, no final, recebeu pela primeira vez aplausos de todas as bancadas. Com esse consenso, Marcelo Rebelo de Sousa pôde ficar com a certeza de que o seu objectivo tinha sido alcançado. E ficou: sobre um tema divisivo, lançou pontes; sobre uma memória ameaçada pelos extremos, introduziu saber e ciência; num debate tenso que alimenta o vírus divisivo do radicalismo, acrescentou ideias e a urgência de uma “lúcida serenidade”. Foi um dos melhores discursos do Presidente da República.

E foi-o porque, bem para lá da sua erudição, é um discurso de coragem e também um discurso no qual a inteligência arrasa a ideia absurda de que o passado pode ser depurado com os julgamentos do presente. Foi um discurso de coragem porque num tema sensível, em que se cruzam a opressão colonial ou o legado racista que persiste no nosso tempo, o Presidente afirmou sem reservas que a memória histórica não se limita à oposição entre a autoflagelação e a autoglorificação. E foi um discurso inteligente porque nos lembrou que não se pode ler o passado sem o enquadrar noutros passados, sem se usarem precauções para o interpretar, sem se considerar que muitos dos soldados que estiveram na frente africana foram também eles vítimas de um regime anacrónico e cego, incapaz de ver que o tempo do colonialismo acabara em 1945.

O que o Presidente pede, afinal, é que o país não caia nos maniqueísmos justicialistas de uma realidade simplificada e que se olhe e assuma o passado em toda a sua extensão e complexidade. Que se ouçam as vítimas, mas que se perceba a dinâmica da História secular; que se saiba e reconheça que houve brutalidade e violência – o que o PÚBLICO fez recentemente com a publicação de uma série de fotografias inéditas que geraram polémica –, mas que se entenda que quem fez Abril esteve nas frentes africanas. O passado deve ser lido à luz dos “avanços civilizacionais” que tornaram o colonialismo uma peste, o racismo uma aberração e a escravatura um horror, mas sem a tentação de o cristalizar na oposição fácil e perigosa entre bons e maus, vítimas e bandidos, passando num ápice da ideia da glória imperial para o desejo de a “demolir”.

É “uma missão ingrata”, admite o Presidente. Que só terá sucesso se houver uma visão em que caibam todas as repulsas, todos os factos e todos os desconfortos. A Guerra Colonial foi um horror, mas não podemos culpar a geração dos nossos pais que foi forçada a combatê-la.»

terça-feira, 31 de julho de 2018

O Homem nunca foi à Lua

A propósito de pseudo-notícias, o interessante e actual artigo de opinião, com o mesmo título, da autoria do economista João Barros, publicado hoje no "Jornal Económico". Com a devida vénia, 

«As pseudo-notícias que apelam ao lado emocional e às preferências sociológicas dos eleitores ganham maior atenção do que a informação factual, verificada e publicada pelos meios de comunicação tradicionais.

A Wikipedia define fake news como “a distribuição deliberada de desinformação ou boatos (…) com a intenção de enganar e, com isso, danificar uma agência, entidade ou pessoa, e/ou obter ganhos financeiros ou políticos”.

Na era do Pós-Verdade, em que assessores de imprensa defendem factos refutáveis por mera observação, conselheiros políticos se referem a “factos alternativos” e líderes de campanhas se demarcam das suas promessas horas após ganharem uma eleição, pseudo-notícias apelando ao lado emocional e preferências sociológicas dos eleitores ganham maior atenção e, por conseguinte, geram mais lucro a quem as publica do que informação factual, verificada e publicada pelos meios de comunicação tradicionais, ao conseguir mais clicks e visualizações.

Isto poderá surgir do facto de, hoje em dia, o consumo de notícias se apresentar mais como uma forma de lazer do que um exercício de responsabilidade democrática, dada a percepção de que cada voto, individualmente, tem um valor residual no resultado da eleição, aliada à quantidade de meios de comunicação e da sua distribuição mais ou menos evidente ao longo do espectro político.

No entanto, um fenómeno conexo a este apareceu: a completa descredibilização e suspeita constante dos chamados “media tradicionais”. Basta observar o ataque à CNN, a quem o Presidente dos EUA se recusa a responder, apelidando-o de notícias falsas, no que me parece constituir um claro ataque à liberdade de imprensa.

E, se por um lado não pretendo de todo retratar como infalíveis ou inquestionáveis as peças e posições desta cadeia noticiosa, por outro é insultuoso classificar uma das mais antigas estações televisivas americanas com o mesmo rótulo que sites anónimos com uma agenda de propaganda bem definida. Mas a verdade é que o rótulo pegou e, talvez numa atitude de mímica acefálica que tanto nos caracteriza, já chegou a Portugal.

A boa informação é precisa (nos dois significados da palavra); mas saber comunicá-la também. Vejamos, por exemplo, a investigação do Correio da Manhã sobre o prédio de Ricardo Robles: ao comunicar mais um dado relevante e, à altura, novo relativamente ao valor patrimonial e consequente IMI a pagar pelo imóvel de Alfama, o matutino escolheu como manchete “Fisco faz saldo a casa de Ricardo Robles”.

Ora, se o core da notícia não me oferece razões para a questionar, a expressão “faz saldo” sugere uma premeditação, insinua um papel activo do fisco numa falha para a qual não existem indícios de fraude. E, se eu, enquanto indivíduo, posso, em conversa de amigos num qualquer bar, fazer tal insinuação (a clássica conversa do “só mudam as moscas”), um jornal com responsabilidade social e dever de informar (esqueçamos por momentos de que jornal falo) não o pode fazer.

Porque estas são as situações que descredibilizam a comunicação tradicional – não mentiras óbvias, como muitos dos leitores da National Review pensarão, pois, já dizia o povo, “mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo” – e levam à adesão a correntes de “factos alternativos” e manchetes sensacionalistas de como o Homem nunca foi à Lua. Curioso que, se me perguntassem, diria que a massa cinzenta de muita gente lá foi – e se perdeu na viagem.»

quarta-feira, 11 de julho de 2018

A não notícia "estar por horas"

Artigo de opinião do professor José Miguel Sardica, intitulado ""Estar por horas": a não-notícia", publicado hoje no site da Rádio Renascença. Com a devida vénia,

«Quando foi inventada – no tempo em que só havia jornais – a comunicação social servia para informar o leitor acerca dos principais factos novos de interesse público. Na era presente da híper-informação, o conceito de notícia é tão amplo e maleável, ao sabor de agendas e lobistas, voyeurismo e infotainment (a mistura da informação com entretenimento), que as redes sociais, as televisões e o online não têm barreiras à “novelização” da informação, ou seja, a lançar um isco e a pisá-lo e repisá-lo, vezes sem conta, servindo requentado um “prato”, leia-se, um tema, que de repente faz manchete, mas que, na verdade, tarda a ser uma notícia, entendida como algo novo e, por isso mesmo, relevante.

Ao lado da informação verdadeira (um conceito hoje bastante relativo), e das “fake news” abundam assim, também, as não-notícias, exploradas à saciedade como “teasers” constantes e diários, quase como um romance-folhetim que avança muito devagarinho (ou não avança), mantendo o suspense e, por esta via, a atenção pública, as audiências, os “clicks” … e os anunciantes.

Para “novelizar” a informação usa-se e abusa-se, hoje, do “pode estar por horas”: as horas passam, nada de realmente novo se passa, mas, entretanto, o show está montado, está criado o suspense, os comentadores constatam que “ainda nada está definido”, e as imagens ou as reportagens, montadas em looping, repetem-se e repetem-se e repetem-se, garantindo que o que quer que seja “está por horas”.

Na última semana, tivemos dois exemplos disto: o drama do resgate dos rapazes presos numa gruta na Tailândia e a epopeia da transferência de Cristiano Ronaldo do Real Madrid para a Juventus. Atenção que de modo algum pretendo igualar as duas histórias. Na Tailândia, lutou-se por vidas; em Turim, aguarda-se um galáctico da bola. Não é o conteúdo, com toda a distância que vai do drama tailandês às venturas de CR7, que aqui quero discutir, mas a forma. Durante dias, as televisões assentaram arraiais nas duas histórias. Na Tailândia, de relevante aconteceu terem encontrado os rapazes e terem, uma semana depois, conseguido o seu resgate. Mas entre uma e outra coisa, viu-se uma sobrecarga de “não-notícias”: a salvação, a chuva ou a incerteza estavam “por horas”. E, no entretanto, houve horas e horas de “especiais” e de opiniões, de espetáculo mediático montado sobre a iminência da tragédia ou da glória. O excesso foi tal que saturou e banalizou o acontecido, ao ponto de o espetador achar que estava a assistir a um documentário de espeleologia! Com Ronaldo é o mesmo. A transferência, a assinatura do contrato, a apresentação em Turim estavam (estão?) “por horas”; um repórter encarregado de “encher chouriço” (perdoe-se a gíria jornalística), entrevista anónimos em Turim, operários da FIAT ou passantes na loja da Juventus e filma, vazia, a sala de imprensa onde talvez o craque dê a sua primeira entrevista em Itália. O suspense é sebastiânico, quando no fundo se trata apenas de um jogador a mudar de entidade patronal! De Ronaldo nada, “but the show must go on”.

Nos EUA, até aos anos 1960/70, os noticiários duravam cerca de 15 minutos; só chegaram à meia-hora por causa do Vietname e do Watergate. Em Portugal, também houve um tempo em que eles eram sóbrios, curtos e realmente noticiosos. O «Domingo Desportivo», que versava sobre futebol, durava meia-hora e limitava-se (é um elogio), a mostrar os resumos dos jogos. Hoje, tudo vale para a espetacularização da notícia. E se a história não avança, não há problema; repete-se o que se tem, mistura-se e dá-se mais uma vez, na esperança de que alguma coisa nova possa, de facto, acontecer “nas próximas horas”. O que interessa é que o share suba e os espetadores não desertem…»