Com a devida vénia, a segunda parte do artigo de opinião do economista João Abel de Freitas publicada ontem em "O Jornal Económico" sob o título "Governo esquece família grisalha",
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De forma sintética, ao longo dos anos 2010/2019 registaram-se perdas salariais importantes, em média, superiores a 20%. Se alguma recuperação se verificou nos escalões de menores rendimentos, nos escalões intermédios a situação para além da reposição do 13º mês e subsídio de natal pouco se alterou. O que significa que a reposição de rendimentos ficou muito aquém da prometida e, sobretudo, continua a penalizar os escalões ditos da classe média (média baixa, média e média alta).
Centrando-nos agora no campo dos aposentados, pensionistas e reformados, a situação é bem pior porque o montante base da sua reforma fica bastante aquém do montante auferido em posição equivalente pela pessoa no activo, excepto para alguns grupos privilegiados da nossa sociedade, que não só podem ter vencimentos superiores aos do primeiro-ministro, como são reformados pelo seu último ordenado. Gostava de entender este privilégio.
Por onde andarão neste País a justiça e a equidade social?!
Não consta. Somos levados a admitir que a equidade social não é um objectivo dos governos, sindicatos e afins e partidos políticos porque facilmente esquecem estas situações de desigualdade inequívoca.
4. Esta política é nociva ao País.
É nociva, socialmente, porque as pessoas ao baixarem de forma continuada o seu poder de compra perdem qualidade de vida, têm de reduzir as suas despesas em áreas essenciais como a saúde, com efeitos perversos a nível individual (o seu estado de saúde deteriora-se mais facilmente) e ainda sobrecarregam o próprio SNS com despesas fora do comum.
É nociva, em termos da evolução da economia, porque esta política de distribuição de rendimentos afecta uma grande fatia da população, chamada de classe média (independentemente do que isso seja).
E todos sabemos que uma sociedade com uma classe média enfraquecida, em perda de capacidade financeira, é sinónimo de fragilidade em termos económicos e democráticos.
Como a OCDE tem vindo a alertar, a classe média encontra-se em declínio por múltiplas razões. O desemprego tem vindo a afectar as famílias da classe média, em todos os países, por razões tecnológicas. O fosso entre ricos e pobres acentua-se e a tendência é para que, nestas circunstâncias, cada vez mais a classe média tenda a ocupar escalões da classe média baixa, aquilo que muitos analistas chamam de descida no elevador social.
Esta situação está a ser muito notória em Portugal. O estreitamento da classe média significa menos consumo. Consumo mais reduzido representa menos produção nacional, menos receitas fiscais, certamente menos emprego e, por conseguinte, os efeitos alargam-se a toda a sociedade, tornando tudo mais vulnerável.
Assim, em vez de se avançar na consolidação do Estado Social recua-se.
Em conclusão, não estamos no bom caminho. Há que corrigir as agulhas, de forma equilibrada, no sentido de uma melhor distribuição do rendimento em que a família grisalha tome também a sua parte. Não nos podemos esquecer que dentro de algum tempo, segundo a lei natural da vida, os hoje activos serão enredados nesta teia que, assim, os vai atingir em situação ainda pior.
Nada vale andar a dizer que Portugal tem uma das distribuições mais desequilibradas da riqueza, se não se apontam medidas que levem de facto à sua correcção. Assim, estamos e continuaremos num patamar em que, como escrevi em artigo anterior, “os elevados rendimentos deste País continuam intocáveis e quem continua a suportar a canga são as pessoas que auferem rendimentos intermédios, pois o que recebem continua muito inferior ao que recebiam em 2010”.»

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