segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O nosso Governo esquece a família grisalha (1)

Com a devida vénia, a primeira parte do artigo de opinião do economista João Abel de Freitas publicada hoje em "O Jornal Económico" sob o título "Governo esquece família grisalha",

«1. O tema da família grisalha – constituída por aposentados, pensionistas e reformados – já uma vez foi aqui abordado, em tempos do governo da geringonça.

Nesse tempo, entendia que a família grisalha se encontrava em apuros, como aliás a grande maioria dos trabalhadores de então no activo, mas alimentava algumas esperanças de melhoria, no percurso de tempo dessa governação.

Reconheço que nem tudo foi negativo. Houve avanços. Convenhamos, nem podia deixar de haver, uma vez que um dos grandes objectivos que uniram os partidos base da geringonça, foi o da reposição de rendimentos. Era imperioso voltar numa primeira fase ao nível de rendimentos de antes da troika. Por outras palavras, anular o descalabro dos duros cortes salariais da governação Passos Coelho/Paulo Portas a quem trabalha ou já trabalhou (a família grisalha).

Quero acentuar que só em parte o objectivo da reposição de rendimentos foi atingido e, sobretudo para a família grisalha, a situação ficou a marcar passo, nomeadamente nos escalões que se inserem na chamada classe média.

As pessoas situadas em escalões acima dos mil e poucos euros recebem de vencimento líquido/mês uma importância significativa bastante inferior ao que auferiam antes da troika (a perda por mês é muito variável, dependendo dos escalões).

Os cortes continuam pesados e sem horizonte de recuperação. Exemplificando. Há pessoas que recebiam 2.800 euros líquidos/mês e hoje recebem 2.200. Descendo de escalão há quem receba hoje 1.750 euros quando antes recebia 2.200. Descendo ainda mais há quem receba 1.100 quando antes recebia 1.350.

Esta é uma realidade crua e dura da perda real de poder de compra de muitas pessoas. A sua vida degradou-se e as perspectivas são negras.

No Governo actual de António Costa, com uma eventual mistura de queijo limiano e ferry, a minha crença está ainda mais esbatida. As notícias são as de que a família grisalha vai ser uma vez mais passada a segundo plano (esquecida) porque vai ter de viver em 2020 com um aumento de 0,7% para pensões até 877,6 euros; entre 877,6 e 2.632,8 com aumento de 0,2% (inflação de 2019) e, acima deste montante, aumento zero. Traduzindo, o aumento previsto nem dá para cobrir o efeito da inflação estimada para 2020. Pior ainda, nada é reposto do passado. A perda de poder de compra continua em constante degradação.

Significa também que o fosso entre os aposentados, pensionistas e reformados e os trabalhadores no activo se vai alargando (independentemente destes também não estarem a ser bem tratados). Não podemos esquecer que muita gente que se reformou nem sequer beneficiou do descongelamento de carreiras. Entrou, assim, em situação desvantajosa.

Estou a centrar-me na Função Pública pela situação facilitar a abordagem. Mas nas reformas com origem no privado, a realidade não se apresenta menos grave.

2. No presente, resta uma promessa vaga de um acordo em concertação social de carácter plurianual para quem está no activo. Para a família grisalha, de nada se fala. O aumento de salários deveria contemplar a inflação, a produtividade e um quociente de recuperação para ir encurtando o atraso de Portugal face aos outros países, no tocante à participação dos salários no rendimento global do país. Sem isso, a aproximação à Europa não passa de um mito. ».../... (continua)

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