segunda-feira, 14 de junho de 2021

A Covid acabou por decreto presidencial (?)

Com a devida vénia, eis a crónica de opinião de Pedro Sousa Carvalho, publicada hoje no jornal online "Eco",

«Marcelo Rebelo de Sousa declarou, este domingo, que, no que depender dele, não haverá “volta atrás” no processo de desconfinamento. Na Feira da Agricultura de Santarém, o Presidente da República disse o seguinte: “Já não voltamos para trás. Não é o problema de saber se pode ser, deve ser, ou não. Não vai haver. Comigo não vai haver. Naquilo que depender do Presidente da República não se volta atrás”.

Será que o Presidente da República sabe que o país tem regras e uma matriz de desconfinamento que implica “voltar para trás” quando os casos aumentam como estão a aumentar em vários concelhos?

O mais grave é que, quando confrontado com as reticências de alguns especialistas em saúde pública sobre a velocidade do desconfinamento, Marcelo deu esta resposta completamente a despropósito: “é bom que os especialistas digam o que têm a dizer, mas o país não é governado por especialistas. O país é governado por quem foi eleito para governar”.

Esperávamos ouvir esta resposta de presidentes populistas e negacionistas como Trump ou Bolsonaro; não do nosso Presidente da República que tem sido sensato a pedir um equilíbrio entre “os fundamentalistas sanitaristas e os fundamentalistas da abertura mais radical e mais intensa”.

Em Portugal, temos tido alguma dificuldade em encontrar esse equilíbrio, ou é 8 ou é 80. Quando os contágios sobem, fecha-se tudo. Quando os casos descem, abre-se tudo, faz-se feiras e arraiais e decreta-se o fim do desconfinamento por decreto presidencial.

Foi assim nas vésperas do Natal quando, animados por um alívio momentâneo de casos, resolvemos facilitar. Houve quem na altura, como o próprio Presidente da República, fosse alvo de muitas críticas por ter planeado estar com um total de 18 pessoas a celebrar o Natal. É caso para dizer, nem 8, nem 18.

Já fomos os piores do mundo, e já fomos os melhores do mundo. Temos tido dificuldade em permanecer numa linha intermédia sensata que não mate a economia, nem faça disparar os contágios. É caso para dizer, nem 8, nem 80. Basta olhar para o boletim diário da DGS para verificar que já tivemos mais de 800 mil casos de Covid-19 em Portugal, quase 8 mil mulheres morreram, mais de 8 mil homens perderam a vida e, ainda ontem, tínhamos mais de 80 internamentos graves nas unidades de cuidado intensivos.

São estes oitos que têm feito a nossa vida num oito e que deveriam obrigar os políticos a parar para pensar, pelo menos durante oito segundos, antes de transmitirem mensagens que vão ser interpretadas pela população como mensagens de facilitismo, numa altura em que os casos de Covid-19 estão novamente a aumentar.

Dir-me-ão, e com alguma razão, que já não há tantos mortos e que os hospitais já não estão a abarrotar como antes do início da vacinação. Sendo isto verdade, também é verdade que a Covid-19 continua a ser uma pandemia e pode deixar sequelas extremamente graves, mesmo nos mais jovens. Já tivemos casos como o das Seychelles em que mesmo com 70% da população vacinada, e com a tão almejada imunidade de grupo, a situação acabou por ficar descontrolada por causa das novas variantes. E o arquipélago teve de “voltar atrás no desconfinamento”, senhor Presidente da República.

Como se não bastasse esta mensagem vinda de Belém, este fim de semana o Iniciativa Liberal resolveu, à revelia da recomendação da DGS, fazer um arraial em Santos disfarçado de comício político, com música, djs e barraquinhas de comida e bebida. Uma festa para comemorar a decadência de um partido que, depois de se aliar aos racistas e xenófobos do Chega nos Açores, resolve agora dar um exemplo de populismo e de irresponsabilidade.

O mesmo partido que, aquando da Festa do Avante, criticou os comunistas por realizarem um evento que, sendo criticável, teve o aval da DGS porque cumpria as normas de segurança e de saúde pública. O Iniciativa Liberal, pouco a pouco, está a revelar-se um partido libertário, na pior aceção da palavra.»

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