quinta-feira, 5 de abril de 2018

Há um complô alargado para proteger quem nos considera e trata como lorpas

O artigo de opinião de Marco Silva, publicado hoje no "Jornal Económico", com o título "Portugal, sol, praia e lorpas". Com a devida vénia,

«lor·pa |ô|: Que ou quem é considerado demasiado ingénuo ou ignorante, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (online). Dizem os entendidos que o primeiro passo para sair de um problema é ter consciência do mesmo e assumi-lo. Por isso, caro leitor, acredite, mesmo que não seja assim que se considera, é assim que é considerado por quem mexe os cordelinhos do seu destino económico. Para ‘eles’ somos todos ingénuos ou ignorantes úteis, para lhes pagarmos as contas.

Fomos recentemente informados de mais uma conta para pagar do Novo Banco (NB), 791,7 milhões de euros é o desembolso para o tal que, a 3 de Agosto de 2014, foi referido pelo Governador do Banco de Portugal como, “devidamente capitalizado e sem activos tóxicos”. Criado com 3,9 mil milhões de euros de dinheiro dos contribuintes (dívida emitida pelo Estado) e detendo cerca de 3 mil milhões de euros de activos “bons” do antigo BES. Contudo, e após uma limpeza de 2 mil milhões de euros de responsabilidades, transferidas para o BES (mau), nem sequer foi possível vender o NB, apesar de se ter pago principescamente a Sérgio Monteiro para esse fim.

No final, o NB foi dado à Lone Star não a custo zero, não, porque o Estado ficou de assumir responsabilidades até 3,89 mil milhões de euros, ou seja, na prática pagámos para ficarem com o Banco, tendo o comprador apenas a responsabilidade de injectar dinheiro no seu próprio activo, que é muito diferente de pagar por um activo, onde há transferência de capital entre comprador e vendedor. Aqui não, o comprador transfere capital para algo que é seu.

Segundo dados do Banco de Portugal desde 2007 até 2017, os contribuintes entraram com 17 mil milhões de euros para pagar o maior roubo de igreja de que há memória. Sim, roubo!

É esse o nome que se dá quando fantoches pseudo-banqueiros em lugares-chave de uma instituição bancária aprovam empréstimos à partida condenados ao incumprimento para ganhos financeiros directos, pagamento de favores ou ganhos políticos – “personalidades” como Armando Vara, Oliveira e Costa, Rendeiro, Tomás Correia, Ricciardi, Sobrinho, Carlos Ferreira e Faria de Oliveira, braços “armados” do esquadrão dos aparelhos partidários ou de outros interesses particulares. Ou ainda Salgado e Roque, que não souberam acautelar as suas responsabilidades, trocando a sobrevivência dos seus grupos pelo favoritismo pessoal e político.

Mas como todos os “bons” roubos, daqueles em que ninguém é apanhado, há sempre um ou mais infiltrados do lado da lei, neste caso da supervisão e da legislação, como Vítor Constâncio ou Carlos Costa. Se o primeiro esteve no epicentro da criação da maior parte das imparidades (até 2010) que vieram a dar à costa até hoje, o segundo tem a particularidade de, em conluio com o poder político, ter deixado o navio em naufrágio, optando depois por um “salvamento” com um barco esburacado.

Apesar da conta exorbitante que os contribuintes pagarão nas próximas décadas, a realidade é que ainda hoje a banca nacional tem o pior rácio de incumprimento de toda a Europa, com excepção de Chipre e Grécia (esta última ainda ao abrigo de um programa de assistência). Isto é, 16,7%, muito acima dos 11,4% da Irlanda, que há apenas dois anos tinha 20,6% enquanto que em Portugal era de 18,7%. Fomos o país que menos reduziu percentualmente o rácio de incumprimento, e aquele que existiu foi essencialmente à conta das imparidades pagas pelos contribuintes.

É um caso concreto de ter um elefante no meio da sala, só que desta feita fala-se dele, mas não se fala do mais importante, das suas consequências e principalmente de quem o lá meteu. Só dez anos depois é que o Zandinga dos tempos modernos, Luís Marques Mendes, encontrou a luz ao dizer: “há um verdadeiro complô de silêncio e de tentativa de encobrir todas estas situações. Um complô que mete políticos e não políticos, que mete gestores e não gestores, empresários e não empresários, da direita à esquerda, do Governo à oposição”.

O mais ridículo nem é essa constatação factual mas tardia, ou a existência de tal esquema. O principal, caro leitor, é que apesar dos inúmeros casos conhecidos, dos seus protagonistas, das mentiras evidentes, da manipulação, da imputação de danos aos contribuintes, das várias comissões de inquérito, até hoje não há um único participante do grande saque a cumprir pena pelo acto, nem deverá haver ao ritmo com que as poucas acusações têm caído por incompetência do BdP, ou nem sequer iniciado por falta de meios do Ministério Público. E este facto é a melhor prova de que sim, há um complô alargado para proteger quem nos considera e trata como lorpas, quer queiramos, quer não.

Cabe-nos a nós enfiar esse barrete ou lutar para que tal mude, não pactuando com o statu quo politiqueiro actual, porque “hoje” foi este golpe, “amanhã” será outro. O resultado será igual, seremos nós a pagar.»

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