Com a devida vénia, eis o artigo de opinião de João Miguel Tavares publicado hoje no jornal "Público",
«Desde que António Costa tomou posse como primeiro-ministro em 2015, mais um milhão de portugueses adquiriu seguros de saúde.»
«Comecemos pelo mais básico dos básicos: a saúde pública em Portugal é gratuita para os utentes; a saúde privada é paga. Se isto vos parece uma lapalissada, a verdade é que poucos retiram consequências desse óbvio ululante: por que raio há hoje mais de três milhões de portugueses a pagar seguros de saúde (e mais 1,2 milhões com ADSE), quando o SNS é à borla? De um lado, um serviço gratuito. Do outro, um serviço pago, e bem pago - e três milhões de pessoas vão a correr para o pago.
Essas pessoas serão estúpidas? Estão a pagar duas vezes pela sua saúde: através de impostos e através de seguros. Será que não apreciam dinheiro? Ou será que, perante a brutal deterioração do SNS, chegaram à conclusão de que a saúde é um assunto demasiado importante para ficar nas mãos do Estado, e preferem pagar a dobrar?
Todos sabemos a resposta. Mas talvez nem todos saibamos que a transferência gigantesca de utentes, médicos e recursos do sector público para o privado não começou nos anos 80, nem 90 - começou há apenas 15 anos. O Hospital da Luz, o primeiro grande hospital privado da nova geração, abriu em 2007. De então para cá, os hospitais privados multiplicaram-se como cogumelos, cada vez maiores e mais imponentes, e os seguros de saúde não pararam de crescer. Os beneficiários aumentaram 90% nos últimos 16 anos. Desde que António Costa tomou posse como primeiro-ministro em 2015, mais um milhão de portugueses adquiriu seguros de saúde.
Isto não é uma opinião. São factos. O PS é o maior amigo da saúde privada em Portugal. O boom do sector começou no Governo de Sócrates e intensificou-se com o Governo de Costa. A conversa demagoga que ainda nesta quarta-feira o primeiro-ministro levou para o Parlamento, repetindo mais do que uma vez que o PSD votou contra a criação do SNS há 43 anos, e que, portanto, quer é dar cabo dele - acusação de tal forma indigente que se torna ofensiva -, só serve para uma coisa: esconder o calamitoso fracasso socialista na gestão do SNS.
Rui Rio disse uma coisa muito acertada: “O PS está a fazer um SNS para pobres.” Devido à sequência trágica de um Governo irresponsável (Sócrates), um Governo intervencionado (Passos) e um Governo refém de cativações e da esquerda radical (Costa), aquilo que hoje temos são hospitais públicos para pobres, escolas públicas para pobres, um Estado cada vez mais assistencialista e um fosso entre elites e povo.
A razão pela qual três milhões de portugueses trocaram a saúde gratuita pela paga é simples: a gestão privada na saúde esmagou a gestão pública. Cito Pedro Pita Barros, um dos maiores especialistas portugueses na área: “Não são necessários mais milhões no OE da Saúde. O que é preciso é saber gerir adequadamente.” Cito o Observatório Português dos Sistemas de Saúde: “Neste momento há uma centralização das decisões que dificulta muito a gestão.” Cito Álvaro Almeida, ex-deputado do PSD e professor de Economia da Saúde, num comentário ao meu artigo de há uma semana: “Não há nenhum gestor hospitalar no mundo que consiga gerir bem um hospital público. Os constrangimentos impostos pela má organização do sistema e as limitações resultantes do actual quadro político-jurídico impedem qualquer um, por muito competente que seja, de gerir bem.”
Isto é o que se devia estar a discutir. Se o SNS é realmente “a jóia da coroa” do país, como António Costa já disse e repetiu, então ele tem bom remédio: tirá-la da loja de penhores onde há 15 anos o PS a enfiou, e tratá-la como merece.»

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