A crónica de opinião intitulada "A fronteira irlandesa" da autoria de Francisco Sarsfield Cabral, publicada há dois dias na newsletter da "Radio Renascença". Com a habitual e devida vénia,
- O Brexit colocou de novo na agenda a reunificação da Irlanda. Os ingleses promotores da saída da UE não tinham pensado nisso. -
«O principal problema que complicou - e complica ainda - um acordo de saída do Reino Unido da Europa comunitária é a fronteira entre a República da Irlanda e o Ulster (Irlanda do Norte), que faz parte do Reino Unido. Como é sabido, no acordo de paz entre protestantes pró-britânicos e católicos, favoráveis a uma integração na República da Irlanda, celebrado há 21 anos, figura o compromisso de manter aberta a fronteira entre a Irlanda independente e o Ulster.
Os promotores do Brexit só acordaram para este problema depois da vitória no referendo de 2016. Não se tinham lembrado de que, com o Reino Unido fora da UE, aquela passava a ser uma fronteira externa da União.
Claro que se poderia evitar o fecho da fronteira irlandesa se Londres admitisse manter o país numa união aduaneira com a UE. Mas logo no início das negociações do acordo de saída T. May pôs de lado manter o Reino Unido no mercado único europeu (queria ficar apenas na livre circulação de mercadorias, algo inaceitável para Bruxelas) ou na união aduaneira. Depois, T. May assinou um acordo que previa uma manutenção temporária do Reino Unido na união aduaneira, enquanto não fosse encontrada outra solução melhor para não fechar a fronteira irlandesa.
O líder trabalhista J. Corbyn apoia uma união aduaneira com a UE após a saída do Reino Unido. Mas sem grande entusiasmo, pois ele não é um europeísta. O que interessa a Corbyn são eleições gerais, que ele espera que o levem a primeiro-ministro.
Para os conservadores eurocéticos ficar numa união aduaneira com a UE, mesmo alegadamente temporária, é algo impensável. Não admitem ficar submetidos a certas regras europeias depois de se “libertarem de Bruxelas”; por exemplo, o Reino Unido não poderia concluir qualquer acordo de comércio com países terceiros. É a quadratura do círculo.
Tudo isto mostra, além do mais, uma certa displicência inglesa quanto à Irlanda, uma antiga colónia fortemente explorada pelos britânicos. No referendo de 2016 a maioria do Ulster votou contra a saída da UE.
O diretor editorial do “Financial Times”, Philip Stephens, escreveu ontem que “nada fez mais para reabrir a questão da unificação da Irlanda do que o Brexit”. Certamente a pensar na Escócia, onde o referendo foi também ganho pelos que queriam permanecer na Europa comunitária, P. Stephens intitulou o seu artigo “Adeus UE, adeus Reino Unido”.»
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