Continuação do artigo da autoria de Joana Amaral Cardoso publicado no jornal "Público" de 13 de Maio, data do falecimento de Doris Day, com 97 anos de idade,
.../...«Se os anos 1950 foram de intensa actividade discográfica, de resto com grande popularidade, a década seguinte seria a da sua ascensão como actriz em Hollywood. Filmou com Hitchcock ou Michael Curtiz, que lhe deu o primeiro papel em Romance no Alto Mar (1948), e contracenou com James Stewart, Cary Grant, James Cagney, Lauren Bacall, Ginger Rogers ou Rock Hudson – com o qual firmou uma amizade. “Divertia-me tanto a filmar com o meu amigo Rock. Rimo-nos sempre a fazer os três filmes que fizemos juntos”, disse em Março à revista Hollywood Reporter. "Ela era tão certinha, com dentes perfeitos, sardas e nariz arrebitado, que as pessoas simplesmente pensavam que ela encaixava no conceito da virgem”, comentava Rock Hudson sobre a imagem de Doris Day, nome quase sinónimo de entretenimento salutar no pós-guerra.
A avaliação da carga sexual que tinha ou não tinha foi uma constante na sua carreira também na música – é “a cantora mais cool e sexy de baladas lentas da história do cinema” para o crítico Gary Giddins na Associated Press, por exemplo, mas o crítico Dwight Macdonald, citado pelo New York Times, descreve-a “saudável como uma taça de cornflakes e ainda menos sexy do que isso”. Um dos filmes que fez, a comédia romântica Conversa de Travesseiro (1959), foi tido como avançado para a época no tocante à sexualidade. O New York Times conta que, ainda assim, Doris Day recusou o papel que tornaria Anne Bancroft num símbolo – o de Mrs. Robinson em A Primeira Noite (1967), com Dustin Hoffman – porque “ofendia” os seus valores pessoais.
Quase uma década mais tarde, diria, no seu livro de memórias, Doris Day: Her Own Story (1976) : “Tenho a triste reputação de ser uma Menina Boazinha ['Miss Goody Two-Shoes’, no inglês original], a Virgem da América e tudo isso, por isso temo que possa chocar algumas pessoas ao dizer que acredito que duas pessoas só devem casar-se depois de terem vivido juntas.” Nessa altura, a sua estrela já não brilhava com o mesmo fulgor numa Hollywood tomada pelos “Movie Brats” que assinavam O Padrinho ou Mean Streets e em que filmes como Bonnie e Clyde (1967) já tinham deixado para trás a sua maria-rapaz de Calamity Jane.
No total, fez 39 filmes. Concentrou a sua carreira como actriz em três décadas (o último filme que fez data de 1968), tendo enveredado a contragosto pela televisão no final dos anos 1960 depois de um contrato contraído em seu nome pelo terceiro marido, que além disso a deixou endividada. A sua imagem continuou a moldar-se nas décadas seguintes, revalorizada pelos pares e pelos críticos, que acabariam por destacar a importância que teve ao interpretar mulheres de carreira e diversificar o seu campo de acção.
Casou-se quatro vezes, foi vítima de violência doméstica no primeiro matrimónio e burlada no terceiro; teve um filho, o produtor musical Terry Melcher, importante nome da música californiana da década de 1960 que trabalhou com os Byrds e os Beach Boys, que se cruzou com a Família Manson do homicida Charles Manson e que morreu em 2004.
Day continuava a receber sinais de admiração dos seus fãs, entre os quais muitas crianças, como aconteceu em Março, quando cumpriu 97 anos e falou com a Hollywood Reporter. “Os [meus] diferentes filmes são bem recebidos pelos espectadores por razões diferentes, mas o que há em comum parece ser o facto de serem alegres.” Nessa entrevista, resumiu o que considerava ser o seu legado para a indústria do cinema: “Gostava de trabalhar e tentava sempre fazer o meu melhor em cada papel. Fico entusiasmada por saber que as pessoas ainda vêem os meus filmes e que eles as animam.”»

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