quinta-feira, 16 de maio de 2019

Morreu Doris Day, o sorriso luminoso da Hollywood clássica (2)

Continuação do artigo da autoria de Joana Amaral Cardoso publicado no jornal "Público" de 13 de Maio, data do falecimento de Doris Day, com 97 anos de idade,


.../...«Se os anos 1950 foram de intensa actividade discográfica, de resto com grande popularidade, a década seguinte seria a da sua ascensão como actriz em Hollywood. Filmou com Hitchcock ou Michael Curtiz, que lhe deu o primeiro papel em Romance no Alto Mar (1948), e contracenou com James Stewart, Cary Grant, James Cagney, Lauren Bacall, Ginger Rogers ou Rock Hudson – com o qual firmou uma amizade. “Divertia-me tanto a filmar com o meu amigo Rock. Rimo-nos sempre a fazer os três filmes que fizemos juntos”, disse em Março à revista Hollywood Reporter. "Ela era tão certinha, com dentes perfeitos, sardas e nariz arrebitado, que as pessoas simplesmente pensavam que ela encaixava no conceito da virgem”, comentava Rock Hudson sobre a imagem de Doris Day, nome quase sinónimo de entretenimento salutar no pós-guerra.

A avaliação da carga sexual que tinha ou não tinha foi uma constante na sua carreira também na música – é “a cantora mais cool e sexy de baladas lentas da história do cinema” para o crítico Gary Giddins na Associated Press, por exemplo, mas o crítico Dwight Macdonald, citado pelo New York Times, descreve-a “saudável como uma taça de cornflakes e ainda menos sexy do que isso”. Um dos filmes que fez, a comédia romântica Conversa de Travesseiro (1959), foi tido como avançado para a época no tocante à sexualidade. O New York Times conta que, ainda assim, Doris Day recusou o papel que tornaria Anne Bancroft num símbolo – o de Mrs. Robinson em A Primeira Noite (1967), com Dustin Hoffman – porque “ofendia” os seus valores pessoais.


Quase uma década mais tarde, diria, no seu livro de memórias, Doris Day: Her Own Story​ (1976) : “Tenho a triste reputação de ser uma Menina Boazinha ['Miss Goody Two-Shoes’, no inglês original], a Virgem da América e tudo isso, por isso temo que possa chocar algumas pessoas ao dizer que acredito que duas pessoas só devem casar-se depois de terem vivido juntas.” Nessa altura, a sua estrela já não brilhava com o mesmo fulgor numa Hollywood tomada pelos “Movie Brats” que assinavam O Padrinho ou Mean Streets e em que filmes como Bonnie e Clyde (1967) já tinham deixado para trás a sua maria-rapaz de Calamity Jane.

No total, fez 39 filmes. Concentrou a sua carreira como actriz em três décadas (o último filme que fez data de 1968), tendo enveredado a contragosto pela televisão no final dos anos 1960 depois de um contrato contraído em seu nome pelo terceiro marido, que além disso a deixou endividada. A sua imagem continuou a moldar-se nas décadas seguintes, revalorizada pelos pares e pelos críticos, que acabariam por destacar a importância que teve ao interpretar mulheres de carreira e diversificar o seu campo de acção.

Casou-se quatro vezes, foi vítima de violência doméstica no primeiro matrimónio e burlada no terceiro; teve um filho, o produtor musical Terry Melcher, importante nome da música californiana da década de 1960 que trabalhou com os Byrds e os Beach Boys, que se cruzou com a Família Manson do homicida Charles Manson e que morreu em 2004.

Day continuava a receber sinais de admiração dos seus fãs, entre os quais muitas crianças, como aconteceu em Março, quando cumpriu 97 anos e falou com a Hollywood Reporter. “Os [meus] diferentes filmes são bem recebidos pelos espectadores por razões diferentes, mas o que há em comum parece ser o facto de serem alegres.” Nessa entrevista, resumiu o que considerava ser o seu legado para a indústria do cinema: “Gostava de trabalhar e tentava sempre fazer o meu melhor em cada papel. Fico entusiasmada por saber que as pessoas ainda vêem os meus filmes e que eles as animam.”»

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