«Passagem lida na missa no passado domingo tornou-se viral nas redes sociais. Perante as comparações com a situação dos direitos das mulheres no Afeganistão, órgão de cúpula da Igreja Católica em Portugal diz que “os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a actualizá-los.”
“Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos.” Esta foi a passagem bíblica de uma epístola de São Paulo - integrava as leituras da eucaristia católica do passado domingo - que se tornou polémica nas redes sociais, muito impulsionada pela projecção dada pela transmissão televisiva da cerimónia católica. Em muitos dos comentários feitos apontavam-se semelhanças com os direitos humanos das mulheres no Afeganistão, agora que os talibãs regressaram ao poder.
A polémica levou a Conferência Episcopal Portuguesa a divulgar uma nota de esclarecimento sobre a epístola muito usada nos casamentos católicos, na qual, além de reconhecer que a passagem teve “ecos diversificados sobre o seu sentido e oportunidade, justamente lidas no contexto vivo e actual das perspectivas preocupantes da situação das mulheres no Afeganistão”, defende que é preciso ver com atenção alguns aspectos da leitura de São Paulo, procurando fazer justiça ao sentido do texto”.
Para o órgão de cúpula da Igreja Católica em Portugal, “o que causa ‘escândalo’, nos dias de hoje, é o conceito de ‘submissão’ proposto à mulher”. A CEP diz que “não se trata, porém, de algo exclusivamente aplicada às mulheres, mas a todos. A leitura começa precisamente por dizer: ´Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo’. Em Paulo, esta submissão não significa menor importância ou subserviência, mas o dar prioridade aos outros, como forma de atenção e cuidado; não centrar a vida e o pensar em si próprio, mas no amor que deve regular todo o relacionamento entre pessoas”.
A Conferência Episcopal defende ainda ser preciso ter em conta que “Paulo se situa no contexto legal do direito familiar romano, que concedia melhores direitos às mulheres do que a maioria das culturas da época, mas que não deixava de pôr em relevo o papel do marido como ‘pater familias - pai de família’, como titular da família no seu conjunto e garantia dos direitos e deveres de cada um e o seu funcionamento relacional e social”. Alerta-se, na nota de esclarecimento, que este quadro permaneceu “nas gerações sucessivas, concretamente no direito português, até há pouco tempo”.
“É à luz de Cristo que se entende a dimensão do amor, até à total entrega e ao dom da vida por aqueles que se ama. E é também essa a norma para a correcta interpretação de qualquer autoridade, representatividade ou primazia. Não se trata de mandar submeter ou depreciar ninguém, mas de cuidar e dar prioridade no dom e no serviço do dia a dia. Na perspectiva de Jesus, bem presente em Paulo, a liderança é serviço e dom de si mesmo, pois Ele veio “não para ser servido, mas para servir e dar a vida”. O verdadeiro exemplo e medida de submissão e de serviço, como dom e amor, é o próprio Jesus, para os esposos e para qualquer outro membro da família e da Igreja”, defende a CEP.
No comunicado, a CEP “responde” ainda a quem questiona porque não se muda o texto, visto acontecer que o mesmo seja alvo de “interpretações incorrectas”. “A pergunta tem a sua razão de ser, mas é claro para a Igreja e para quem quiser interpretar textos e tradições com origem noutras culturas e noutros tempos: os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a actualizá-los”, defende a Conferência Episcopal, que recorre inclusivamente a um exemplo da literatura portuguesa para reforçar esta posição. “Não se mudam os versos épicos de Camões, porque não correspondem à mentalidade actual e até, em alguns casos, podem causar escândalo.”
Tal postura, defende a CEP, “seria cair na arbitrariedade e na ditadura das modas e na imposição da cultura única. É por isso que se estuda Camões nas escolas, para que todos tenham acesso à beleza dos seus versos, dentro dos condicionalismos da sua época”. E remata: “A Palavra de Deus permanece viva e actual e é importante que seja escutada sempre com a sua sonoridade original. O próprio Jesus deu o exemplo de leitura ao relê-la e reinterpretá-la à luz da nova realidade que era Ele próprio e a situação daqueles a quem se dirigia. Conservar a Palavra de Deus e a Tradição é continuar a fazê-las soar em assembleias vivas, como as pautas de música dos grandes autores, constantemente actuais, porque continuam a alegrar corações, a criar sonhos e a gerar estéticas novas, cada vez que se executam”.»
(Fonte da notícia: Semanário "Novo", 26/08/2021)

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