Com a devida vénia, eis a crónica de Miguel Esteves Cardoso publicada hoje no jornal "Público",
«O atleta britânico Bradley Sinden ganhou uma medalha de prata em Tóquio no taekwondo mas recusa-se a celebrá-la. Diz que queria a medalha de ouro e que a medalha de ouro era dele e que foi ele que a entregou ao adversário.
A atleta britânica Bianca Walkden ganhou uma medalha de bronze em Tóquio mas diz que não é a cor que ela queria, que talvez a pinte quando chegar a casa, porque ninguém vai saber. Desiludida por não ter ganho a medalha de ouro, disse que “se sente um bocado morta por dentro e que isso está a matá-la”.
Onde é que já tínhamos visto isto? No Euro. Depois da derrota na final, contra a Itália, a equipa da Inglaterra recusou-se a celebrar o segundo lugar, tirando imediatamente a medalha que recebeu.
Nem quero acreditar que são ingleses a portar-se assim. Não é por acaso que a expressão fair play é dita em inglês. Os ingleses não se limitaram a inventar muitos dos desportos mais populares. Juntamente com as regras, inventaram, para acompanhá-las, o sportsmanship.
O sportsmanship define-se como saber jogar com respeito pelo adversário e pelo próprio jogo. Mais curta ainda é esta definição: é saber perder. Saber perder e saber ganhar mas, sobretudo, saber perder.
O mau perder não é apenas uma falta de respeito pelo vencedor. Recusar uma medalha de prata ou de bronze é desrespeitar todos os atletas que conseguiram ganhar medalhas de prata e de bronze.
Pior ainda: é desrespeitar todos os atletas que conseguiram um triunfo dificílimo – serem seleccionados para os jogos olímpicos.
Não é uma questão de gerações. A atleta britânica Lauren Williams também queria uma medalha de ouro no taekwondo. Mas recusou-se a fazer birra. E disse: “É uma medalha de prata. Não é mau, pois não?”
Não, não é. É maravilhoso.»

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